Questão #12324702013

Português

Para responder às questões de 1 a 5, leia o texto abaixo.

Busca pela vida em águas profundas em Santos

O navio de pesquisa oceanográfica japonês

Yokosuka chegou ontem ao Porto de Santos, com o

submarino Shinkai 6500 e um grupo de cientistas brasileiros

a bordo, marcando assim o fim de uma expedição de duas

semanas sobre o Platô de São Paulo, com mergulhos que

chegaram a 3.600 metros de profundidade.

E a grande descoberta da expedição, imagine só, foi

não ter descoberto quase nada. Foi a primeira vez que

cientistas mergulharam a grandes profundidades nessa

região, e a escassez de vida surpreendeu tanto os

pesquisadores japoneses quanto os brasileiros. A

expectativa era encontrar grandes concentrações de vida,

mas infelizmente nada disso foi localizado, contou ao

Estado o cientista chefe da expedição, Katsunori Fujikura, da

Agência Japonesa de Ciência e Tecnologia da Terra e do Mar

(Jamstec). A expectativa baseava-se no fato de que, do

ponto de vista geológico, o Platô de São Paulo (onde fica a

Bacia de Santos) é muito parecido com o Golfo do México,

onde há também muitas reservas de petróleo, gás, e uma

grande concentração de ecossistemas quimiossintéticos,

que é o que os biólogos esperavam encontrar por aqui

também. Foi uma surpresa para nós. Por que será que há

tão pouca vida aqui? Esse será o escopo das pesquisas a

partir de agora, completou Fujikura.

Ecossistemas quimiossintéticos são ambientes de

grande profundidade associados a falhas no assoalho

oceânico, nos quais a fonte primária de energia para a vida

não é a fotossíntese, como realizada pelas plantas na

superfície, mas o metabolismo de elementos químicos

inorgânicos (como metano e enxofre) realizado por microorganismos

especialmente adaptados a condições extremas

de temperatura e pressão, que acabam dando suporte à

vida de vários organismos maiores, incluindo moluscos,

crustáceos e peixes. Há dois tipos principais desses

ambientes: as fumarolas de água quente e as exsudações de

água fria, que é o que os pesquisadores esperavam

encontrar no Platô de São Paulo.

A viagem de duas semanas, entre Rio e São Paulo,

foi a segunda pernada de uma expedição iniciada cerca de

um mês atrás, dentro de uma parceria entre a Jamstec, o

Instituto Oceanográfico da USP e o Serviço Geológico do

Brasil (CPRM), envolvendo pesquisadores de várias

instituições brasileiras e japonesas. Na primeira pernada

foram realizados sete mergulhos de até 4.200 metros de

profundidade nas regiões da Elevação do Rio Grande e da

Dorsal de São Paulo. Agora, na segunda pernada, foram

nove mergulhos de até 3.600 metros no Platô de São Paulo

(estavam previstos 10 mergulhos, mas o último teve de ser

cancelado por questões meteorológicas).

Nenhum ambiente quimiossintético foi encontrado,

e a quantidade de animais maiores observados também foi

pequena — diferentemente do que foi observado nos

mergulhos da primeira pernada. Apesar de serem todos da

mesma região, os três locais têm biodiversidades distintas,

observou Fujikura. Aqui não vimos animais de grande porte

e a quantidade de vida era muito menor.

O que não significa que a expedição tenha sido um

fracasso, nem que não existam ecossistemas

quimiossintéticos no Platô de São Paulo, segundo a

pesquisadora Vivian Pellizari, do Instituto Oceanográfico da

USP. O que nós vimos foi uma parte muito pequena do

platô, destaca ela. É impossível que numa área enorme

como essa, com todo o petróleo que sabemos ter aqui, não

haja nenhum escape de gás, nenhuma exsudação fria, como

há no Golfo do México. Temos de continuar procurando; é

uma agulha no palheiro.

Mesmo sem ter encontrado nenhum ambiente

quimiossintético, os cientistas vão voltar para casa com uma

grande quantidade de dados e amostras, suficiente para

muitos anos de pesquisa. Dezenas de amostras de água,

sedimentos e animais de águas profundas foram coletadas,

incluindo caranguejos, camarões, mexilhões, esponjas,

pepinos e estrelas do mar. É bem possível que tenhamos

espécies novas nessas amostras, diz o biólogo Angelo

Bernardino, da Universidade Federal do Espírito Santo

(UFES), que fez um mergulho com o Shinkai a 2.800 metros

de profundidade. Acho que vão aparecer coisas muito

interessantes nas análises.

Vivian e Bernardino destacam que o Atlântico Sul

nunca havia sido prospectado cientificamente dessa

maneira, e foi a primeira vez que cientistas brasileiros

tiveram oportunidade de descer a essas profundidades na

costa brasileira. Foi uma oportunidade única para a ciência

do Brasil, disse Vivian, ressaltando que várias instituições

do País, de vários Estados, vão receber amostras coletadas

na expedição para pesquisa. Apesar de a biodiversidade

observada ter sido bem menor do que esperávamos, o

desafio será maior ainda agora para explicar esses

resultados, avaliou a bióloga. É a primeira vez que

coletamos esse tipo de dado no Brasil; então, toda

informação que pudermos extrair deles será muito

importante.

As amostras de água e sedimento, por exemplo,

serão minuciosamente analisadas quimicamente e

geneticamente para entender que elementos e microorganismos

estão presentes nesses ambientes.

(Disponível em www.estodoo.com.br)

A palavra pequena, em destaque no texto, exerce a mesma função do termo destacado em: