Questão #14782402007

Português — interpretação de textos

Atenção: As questões de números 1 a 20 referem-se ao textoque segue.Para que servem as ficções?Cresci numa família em que ler romances e assistir afilmes, ou seja, mergulhar em ficções, não era considerado umaperda de tempo. Podia atrasar os deveres ou sacrificar o sonopara acabar um capítulo, e não era preciso me trancar nobanheiro nem ler à luz de uma lanterna. Meus pais, eventualmente,pediam que organizasse melhor meu horário, mas deixavamclaro que meu interesse pelas ficções era uma partecrucial (e aprovada) da minha formação. Eles sequer exigiamque as ditas ficções fossem edificantes ou tivessem um valorcultural estabelecido. Um policial e um Dostoiévski eram tratadoscom a mesma deferência. Quando foi a minha vez de serpai, agi da mesma forma. Por quê?Existe a idéia (comum) segundo a qual a ficção é umaescola de vida: ela nos apresenta a diversidade do mundo econstitui um repertório dopossível. Alguém dirá: o mesmo nãoaconteceria com uma série de bons documentários ou ensaiosetnográficos? Certo, documentários e ensaios ampliam nossoshorizontes. Mas a ficção opera uma mágica suplementar.Tome, por exemplo, O Caçador de Pipas, de KhaledHosseini. A leitura nos faz conhecer a particularidade do Afeganistão,mas o que torna o romance irresistível é a história singularde Amir, o protagonista. Amir, afastado de nós pela particularidadede seu grupo, revela-se igual a nós pela singularidadede sua experiência. A vida dos afegãos pode ser objetode um documentário, que, sem dúvida, será instrutivo. Mas ahistória fictícia daquele afegão o torna meu semelhante e meuirmão.Esta é a mágica da ficção: no meio das diferençasparticulares entre grupos, ela inventa experiências singularesque revelam a humanidade que é comum a todos, protagonistase leitores. A ficção de uma vida diferente da minha me ajuda adescobrir o que há de humanoem mim.Enfim, se perpetuei e transmiti o respeito de meus paispelas ficções é porque elas me parecem ser a maior e melhorfonte não de nossas normas morais, mas de nosso pensamentomoral.(Contardo Calligaris, Folha de S. Paulo, 18/01/2007)

Considere as seguintes afirmações: I. Apesar da opinião que tinham seus pais sobre o que deveria constituir a formação de um jovem, o autor entregava-se ao prazer que lhe proporcionavam as formas ficcionais. II. O autor reconhece que documentários e ensaios, ao contrário das ficções, ampliam nossos horizontes e exploram as diversidades da vida social. III. O poder da ficção, para o autor, está em nos fazer reconhecer, a partir de um indivíduo fictício, o sentido de uma humanidade que é tanto dele como nossa. Em relação ao texto, está correto somente o que se afirma em