Questão #14132682010

Português — nacionalidade

Nenhum homem é uma ilha, escreveu o inglês JohnDonne em 1624, frase que atravessaria os séculos como umdos lugares-comuns mais citados de todos os tempos. Todo lugar-comum, porém, tem um alicerce na realidade ou nos sentimentoshumanos - e esse não é exceção. Durante toda a históriada espécie, a biologia e a cultura conspiraram juntas paraque a vida humana adquirisse exatamente esse contorno, o deum continente, um relevo que se espraia, abraça e se interliga.A vida moderna, porém, alterou-o de maneira drástica.Em certos aspectos partiu o continente humano em um arquipélagotão fragmentado que uma pessoa pode se sentir totalmenteseparada das demais. Vencer tal distância e se reuniraos outros, entretanto, é um dos nossos instintos básicos. E é aele que atende um setor do mercado editorial que cresce apassos largos: o da autoajuda e, em particular, de umaautoajuda que se pode descrever como espiritual. Não porquetenha necessariamente tonalidadesreligiosas (embora elas, àsvezes, sejam nítidas), mas porque se dirige àquelas questõesde alma que sempre atormentam os homens. Como a perda deuma pessoa querida, a rejeição ou o abandono, a dificuldade deconviver com os próprios defeitos e os alheios, o medo davelhice e da morte, conflitos com os pais e os filhos, a frustraçãocom as aspirações que não se realizaram, a perplexidade diantedo fim e a dúvida sobre o propósito da existência. Questõesque, como séculos de filosofia já explicitaram, nem sempre têmsolução clara - mas que são suportáveis quando se tem comquem dividir seu peso, e esmagadoras quando se está só.As mudanças que conduziram a isso não são poucasnem sutis: na sua segunda metade, em particular, o século XXfoi pródigo em abalos de natureza social que reconfiguraram omodo como vivemos. O campo, com suas relações próximas, foitrocado em massa pelas cidades, onde vigora o anonimato. Asmulheres saíram de casa para o trabalho, e ainstituição dacomadre virtualmente desapareceu. Desmanchou-se tambéma ligação quase compulsória que se tinha com a religião, asfamílias encolheram drasticamente não só em número de filhosmas também em sua extensão. A vida profissional se tornouterrivelmente competitiva, o que acrescenta ansiedade e reduz as chances de fazer amizades verdadeiras no local de trabalho.Também o celular e o computador fazem sua parte, aumentandoo número de contatos de que se desfruta, mas reduzindosua profundidade e qualidade.Perdeu-se aquela vasta rede de segurança que, é certo,originava fofoca e intromissão, mas também implicava conselhose experiência, valores sólidos e afeição desprendida, quenão aumenta nem diminui em função do sucesso ou da beleza.Essa é a lacuna da vida moderna que a autoajuda vem se propondoa preencher: esse sentido de desconexão que faz comque em certas ocasiões cada um se sinta como uma ilha desgarradado continente e sem meios de se reunirnovamente aele.(Isabela Boscov e Silvia Rogar. Veja, 2 de dezembro de 2009,pp. 141-143, com adaptações)

Considerando-se o Imagem da questão parágrafo, está INCORRETO o que se afirma em: