Questão #14049222010

Português — excel 2007

Multidões de mascarados e maquiados com cores alegóricasdas nacionalidades envolvidas nas disputas da Copa doMundo falam por esse meio uma linguagem que simbolicamentequer dizer muito mais do que pode parecer. Trata-se de umritual cíclico de renovação de identidades nacionais expressasnos ornamentos e paramentos do que é funcionalmente umanova religião no vazio contemporâneo. Aqui no Brasil as manifestaçõessimbólicas relacionadas com o futebol e seus significadostêm tudo a ver com o modo como entre nós se difundiua modernidade, nas peculiaridades de nossa história social.Embora não fosse essa a intenção, rapidamente esseesporte assumiu entre nós funções sociais extrafutebolísticasque se prolongam até nossos dias e respondem por sua imensapopularidade. A República, em que todos se tornaram juridicamentebrancos, sucedeu a monarquia segmentada em senhorese escravos, brancos e negros, todos acomodados numa dessasduas identidades. ARepública criou o brasileiro genérico eabstrato. O advento do futebol entre nós coincidiu com a buscade identidades reais para preencher as incertezas dessa ficçãojurídica. Clubes futebolísticos de nacionalidades, de empresas,de bairros, de opções subjetivas disfarçaram as diferençassociais reais e profundas, sobrepuseram-se a elas e tornaramfuncionais os conflitos próprios da nova realidade criada pelaabolição da escravatura.No futebol há espaço para acomodações e inclusões,mesmo porque, sem a diversidade de clubes e sem a competição,o futebol não teria sentido. O receituário da modernidadeinclui, justamente, esses detalhes de convivência com a diversidadee com a rotatividade dos que triunfam. Nela, a vida recomeçacontinuamente; depois da vitória é preciso lutar pela vitóriaseguinte.O futebol, essencialmente, massificou e institucionalizoua competição e a concorrência, elevou-as à condição de valoressociais e demonstrou asoportunidades de vitória de cada um norodízio dos vitoriosos. Nele, a derrota nunca é definitiva nempermanente. Por esse meio, o que era mero requisito do funcionamentodo mercado e da multiplicação do capital tornou-seexpressamente um rito de difusão de seus princípios no modode vida, na mentalidade e no cotidiano das pessoas comuns.É nesse sentido que o futebol só pode existir em sociedadescompetitivas e de antagonismos sociais administráveis.Fora delas, não é compreendido. Há alguns anos, um antropólogoque estava fazendo pesquisa com os índios xerentes, deGoiás, surpreendeu-se ao ver que eles haviam adotado entusiasticamenteo futebol. Com uma diferença: os 22 jogadoresnão atuavam como dois times de 11, mas como um único timejogando contra a bola, perseguida em campo todo o tempo.Interpretaram o futebol como ritual de caça. Algo próprio de umasociedade tribal e comunitária.(Adaptado de José de Souza Martins. O Estado de S.Paulo,aliás, J7, 4 de julho de 2010)

Algo próprio de uma sociedade tribal e comunitária. O comentário acima, que encerra o texto, deve ser corretamente entendido como