Questão #12351142013

Português

Texto:

Livro, um alvará de soltura

Costumo brincar que, para conseguir ler todos os

livros que me enviam, só se eu pegasse uma prisão

perpétua. Pois é de estranhar que, habituada a fazer

essa conexão entre isolamento e livros, tenha me

passado despercebida a matéria que saiu recentemente

nos jornais (da qual fui gentilmente alertada por uma

leitora) de que os detentos de penitenciárias federais

que se dedicarem à leitura de obras literárias, clássicas,

científicas ou filosóficas poderão ter suas penas reduzidas.

A cada publicação lida, a pena será diminuída em

quatro dias, de acordo com a Portaria 276 do Departamento

Penitenciário Nacional (Depen). No total, a

redução poderá chegar a 48 dias em um ano, com a

leitura de até 12 livros. Para provar que leu mesmo, o

detento terá que elaborar uma resenha que será

analisada por uma comissão de especialistas em

assistência penitenciária.

A ideia é muito boa, então, por favor, não compliquem.

Não exijam resenha (eles lá sabem o que é resenha?)

nem nada assim inibidor. Peçam apenas que o sujeito,

em poucas linhas, descreva o que sentiu ao ler o livro,

se houve identificação com algum personagem, algo

simples, só para confirmar a leitura. Não ameacem o

pobre coitado com palavras difíceis, ou ele preferirá

ficar encarcerado para sempre.

Há presos dentro e fora das cadeias. Muitos adolescentes

estão presos a maquininhas tecnológicas

que facilitam sua conexão com os amigos, mas não

consigo mesmo. Adultos estão presos às telenovelas

e aos reality shows, quando poderiam estar investindo

seu tempo em algo muito mais libertador. Milhares de

pessoas acreditam que ler é difícil, ler é chato, ler dá

sono, e com isso atrasam seu desenvolvimento, atrofiam

suas ideias, dão de comer a seus preconceitos, sem

imaginar o quanto a leitura as libertaria dessa vida estreita.

Ler civiliza.

Essa boa notícia sobre atenuação de pena é praticamente

uma metáfora. Leitura = liberdade. Não é

preciso ser um criminoso para estar preso. O que não

falta é gente confinada na ignorância, sem saber como

escrever corretamente as palavras, como se vive em

outras culturas, como deixar o pensamento voar. O livro

é um passaporte para um universo irrestrito. O livro é a

vista panorâmica que o presídio não tem, a viagem pelo

mundo que o presídio impede. O livro transporta,

transcende, tira você de onde você está.

Por receber uma quantidade inquietante de livros,

e sem ter onde guardá-los todos, costumo fazer doações

com frequência para escolas e bibliotecas. Poucos

meses atrás, doei alguns exemplares para um presídio

do Rio de Janeiro, e sugiro que todas as pessoas que

tenham livros servindo de enfeite em casa façam o

mesmo. Que se cumpram as penas, mas que se deixe

a imaginação solta.

(Martha Medeiros – publicado na revista de O Globo, em 8 de julho de

2012, página 24.)

No terceiro parágrafo, a autora estabelece diálogo

com as autoridades responsáveis pela execução

do projeto nas penitenciárias, com a intenção de

levá-las a ter certa atitude. O mecanismo linguístico

que evidencia esse fato é: