Questão #11396372015

Português

Plataforma

O Rio vive uma contradição no carnaval que parece

não ter saída. Não vai longe o tempo em que reclamava da

decadência da folia nas ruas. O carnaval tinha se transformado

no desfile de escolas de samba, uma festa elitista que se

resumia ao que acontecia nos limites do Sambódromo e que

era vista por apenas 30 mil pessoas que pagavam caro para

participar da brincadeira. E que só durava duas noites. Para

quem se diz o maior carnaval do mundo, convenhamos que

é muito pouco mesmo. Agora, quando os blocos voltaram a

animar as ruas da cidade durante toda a folia e ainda nas

semanas que a antecedem, o Rio continua reclamando. Tem

bloco demais, tem gente demais, tem pouco banheiro, tem

muito banheiro... Carnaval é festa espontânea. Quanto mais

organizado, pior. Chico Buarque fala sobre isso no ótimo

samba Plataforma. Não põe corda no meu bloco/ Nem vem

com teu carro-chefe/ Não dá ordem ao pessoal, já dizia ele

num disco de antigamente. Bem, como antigamente as letras

de Chico sempre queriam dizer outra coisa, é capaz de ele não

estar falando de organização do carnaval. Mas à certa altura

ele é explícito: Por passistas à vontade que não dancem o

minueto. Para quem está chegando agora, pode parecer o

samba do crioulo doido. Mas o compositor faz uma referência

ao desfile do Salgueiro de 1963, quando Xica da Silva foi

apresentada à avenida. A escola inovou apresentando uma

ala com 12 pares de nobres que dançavam o minueto. Foi um

escândalo. Não pode. Passista tem que desfilar livre, leve e

solto. Falando disso agora, quando passistas não têm a menor

importância, quando eles mal são vistos na avenida, percebese

que o minueto era o de menos. Mas isso é escola de samba,

e o assunto aqui é carnaval de rua (faz tempo que escola de

samba não é carnaval de rua). Com o renascimento dos blocos,

o Rio recuperou a alegria do carnaval nas calçadas, no asfalto,

na areia. E agora? Basta dar uma olhada nas cartas dos

leitores aqui do jornal. Reclama um leitor: Para os moradores

de Ipanema, (o carnaval de rua 2011) transformou-se num

tormento. Ruas bloqueadas até para o trânsito de pedestres,

desrespeito à Lei do Silêncio, atos de atentado ao pudor e,

por vezes, de vandalismo. Escreve outro, sobre os mijões,

figura que ficou tão popular no período quanto a colombina e o

pierrô: A Guarda Municipal deveria agir com mais atenção e no

rigor da lei. Está muito sem ação. Mais um: Com que direito

a prefeitura coloca esses banheiros horrorosos nas avenidas

da orla, onde se paga dos IPTUs mais caros do mundo,

ocupando vagas de carros que já são tão poucas? Como se

vê, e voltando a citar o samba do Chico, o carioca tem o peito

do contra e mete bronca quando o assunto é carnaval. Mas

carnaval de rua muito organizado... não sei, não. É como botar

o pessoal que sai nos blocos para dançar o minueto. Carnaval

de rua e organização não combinam.

(Artur Xexéo. Revista O Globo, dezembro de 2011)

Em Falando disso aaora. quando passistas não têm a menor importância, quando eles mal são vistos na avenida, percebe-se que o minueto era o de menos”, o termo em destaque tem os corretos comentários morfológicos e semânticos indicados em: