Questão #15194732004

Português

Defesa (febril) da televisão Uma leve gripe me forçou a ficar na cama. Aproveitei para assistir a 18 horas seguidas de televisão [...] Queria verificar a quanta violência se expõe um espectador passando seu dia na frente da TV. A idéia surgiu porque a TV está sob suspeita. Mais do que cinema, Internet e videogames, ela é sempre culpada pelo que não dá certo com nossos jovens [...] Primeiro prova-se que, na vida de um jovem, a televisão é mais presente do que a escola e os pais. Em média, o jovem americano vê 1.500 horas de TV por ano. E passa apenas 900 na escola. A criança entre 2 e 11 anos assiste a três horas por dia de TV. E conversa de maneira significativa com os pais por apenas de cinco a seis minutos. Conclusão: a TV é quem mais influencia nossos rebentos. [...] Como ultimamente alguns jovens americanos tomaram as armas sem razão aparente, a TV, repetem hoje comentadores e experts, é uma escola de violência. Eis os números aparentemente impressionantes. Aos 18 anos, um jovem americano terá assistido na TV a 16 mil assassinatos (mais ou menos 3 por dia) e a 200 mil atos de violência (números que, proporcionalmente, não devem ser muito diferentes para o Brasil). No fim de minha maratona, as estatísticas pareciam confirmadas. Cinco pessoas foram assassinadas em minha presença e 28 levaram tapas, pontapés, socos e mesmo surras. Parece muita violência? Não sei; em muitos casos (entre eles os 5 mortos) a violência era de uma certa forma justa, alvejava algum bem evidente. Mas, sobretudo, descobri que, durante as 18 horas, sete casais tinham se juntado para viver felizes. Outros nove resistiram a uma briga feia. Também 27 pessoas se apaixonaram, o número ímpar sugerindo que nem todas foram correspondidas. Nasceram duas crianças, uma não desejada mas que encontrou os cuidados de uma comunidade generosa. Nove pessoas adoeceram, sete foram curadas ou confortadas, duas morreram em paz com Deus e o mundo. Aliás, uma aproveitou a ocasião para fazer as pazes com ambos. Globalmente, os criminosos, os malandros, os chatos, os corruptos e os interesseiros foram esmagados pelos bons cidadãos, trabalhadores e sinceros. Também a liberdade soberana dos indivíduos foi respeitada, mas não por isso falhou a generosidade comunitária. Na ausência (definitiva e provavelmente bem-vinda) de prescrições morais dogmáticas, a telinha contemplada por 18 horas me pareceu ser um código moral possível para nosso tempo. Ele não é composto de regras, mas de uma casuística de parábolas, cuja autoridade deriva do consenso implícito dos espectadores pois a moral que triunfa na tela é a que encontra a aprovação da maioria. Os próprios anúncios publicitários fazem parte de nossas regras sociais de conduta. Eles alimentam o desejo indispensável numa economia neoliberal. Mas, acima de tudo, permitem a convivência pacífica em um mundo que, sem isso, seria entregue a ódios incontroláveis por ser fundamentalmente regrado pela inveja. O anúncio cria e promove idéias comuns. Em vez de odiar meu vizinho por ele ter o carro que eu quero, juntos idealizamos o homem impossível, bonito e forte, que dirige o tal carro na TV. Esse homem não é nem ele, nem eu. A mediação do piloto televisivo inibe a inveja e a transforma em emulação o suficiente para que o tecido social não quebre. Em suma, nas 18 horas, longe de estimular a barbárie, a televisão me ofereceu uma amostra dos costumes sociais e da moral social ordinária, uma espécie de revisão dos requisitos para a vida em sociedade neste fim de século. (Contardo Calligaris. Folha de S. Paulo, 3/6/99.)

Em suma, nas 18 horas, longe de estimular a barbárie, a televisão me ofereceu uma amostra dos costumes sociais e da moral social ordinária, uma espécie de revisão dos requisitos para a vida em sociedade neste fim de século.” Não se pode dizer desse segmento do texto que: