Questão #14024162010

Biologia

O texto a seguir é parte de uma entrevista publicada pela revista CULT e serve de base para as questões 07 a 09.

No final de maio deste ano, a revista Science publicou um trabalho que causou alarde para além dos muros da comunidade

científica. Liderado pelo doutor Craig Venter, um grupo de cientistas norte−americanos conseguiu criar em laboratório a primeira

célula controlada por um genoma sintético. A descoberta sinaliza para o fato de que a criação de seres vivos inéditos na natureza

parece não estar distante, o que despertou a atenção de diversos setores da sociedade. Prova disso foi a atitude do presidente

Barack Obama que, após tomar conhecimento do feito, pediu a seus conselheiros especializados em biotecnologia que

elaborassem um relatório sobre os possíveis prós e contras da descoberta. O Vaticano, por sua vez, conclamou para o debate

ético, ao afirmar que a descoberta deve ter regras, como tudo o que toca o coração da vida.

Esse exemplo é apenas um entre os tantos avanços recentes da ciência que suscitam acaloradas discussões. O homem está

autorizado a criar seres vivos inéditos na natureza? Quais os dilemas éticos envolvidos? Qual o papel da sociedade e dos

cientistas diante desses dilemas? Para discutir essas e outras questões, a CULT entrevistou uma das maiores autoridades

brasileiras no assunto, a geneticista Lygia da Veiga Pereira.

CULT – Com relação ao genoma sintético, é correto falar em criação da vida, como a mídia vem fazendo?

Lygia da Veiga Pereira – O que esse grupo [pesquisadores norte−americanos liderados pelo doutor Craig Venter] fez foi

sintetizar no laboratório um genoma completo de uma bactéria e, ao colocar esse genoma dentro de outra, ele passou a reger a

vida dessa bactéria. Então, rigorosamente falando, ele não criou vida, eu diria que ele reprogramou uma vida, pois transformou

uma forma de vida A em uma forma de vida B. Trata−se de um grande avanço tecnológico, pois ele mostrou que consegue

sintetizar no laboratório um genoma de uma bactéria e que esse genoma funciona quando é posto dentro de outra.

Por que eu digo que é um avanço puramente tecnológico? Eles de fato sintetizaram as moléculas de DNA em laboratório,

mas a sequência daquele DNA já existia na natureza. O próximo passo, esse sim revolucionário, será criar um genoma inédito,

que a natureza não selecionou. Baseados nos milhares de genes já descritos em bancos de dados, os pesquisadores poderão

criar um genoma completamente inédito, inseri−lo em uma bactéria e então vão criar um ser vivo inédito. E para que fazer isso?

Porque eles acham que vão conseguir desenhar seres vivos que exerçam funções interessantes para nós, como, por exemplo,

captar CO2 da atmosfera ou digerir o petróleo no mar. É um enorme desafio.

CULT – Que implicações éticas você prevê para isso?

Lygia – O dilema ético é que não conseguimos prever se esse ser vivo fará somente o que o pesquisador pretende que ele

faça. Não sabemos se aquela bactéria que ele desenhou só para digerir o petróleo na água do mar vai, por exemplo, começar a

digerir algas ou será tóxica para alguns peixes e então provocar um desastre ecológico. A questão é que os sistemas biológicos

são muito complexos e não conhecemos todas as leis que os regem. Então, se propor a construir novos seres vivos, desenhar

novos seres vivos talvez seja uma pretensão ainda muito grande, dado o nosso pouco conhecimento dessas leis. Pode−se ter a

melhor das intenções, mas, quando esse ser vivo estiver solto no meio ambiente, ele vai se comportar de forma imprevisível e o

tiro pode sair pela culatra. É nisso que devemos prestar atenção.

(CULT, 16 jul. 2010.)

Segundo o texto, a imprensa divulgou a experiência realizada pelos cientistas como criação da vida em laboratório.

Qual é o ponto de vista da geneticista Lygia da Veiga Pereira diante da descoberta relatada pelo dr. Craig Venter?