Questão #13825812010

Português (ENEM) — realismo

Quincas Borba mal podia encobrir a satisfação do triunfo.

Tinha uma asa de frango no prato, e trincava–a com

filosófica serenidade. Eu fiz–lhe ainda algumas objeções,

mas tão frouxas, que ele não gastou muito tempo em

destruí–las.

— Para entender bem o meu sistema, concluiu ele,

importa não esquecer nunca o princípio universal,

repartido e resumido em cada homem. Olha: a

guerra, que parece uma calamidade, é uma operação

conveniente, como se disséssemos o estalar dos dedos

de Humanitas; a fome ( e ele chupava filosoficamente a

asa do frango), a fome é uma prova a que Humanitas

submete a própria víscera. Mas eu não quero outro

documento da sublimidade do meu sistema, senão este

mesmo frango. Nutriu–se de milho, que foi plantado por

um africano, suponhamos, importado de Angola. Nasceu

esse africano, cresceu, foi vendido; um navio o trouxe,

um navio construído de madeira cortada no mato por

dez ou doze homens, levado por velas, que oito ou

dez homens teceram, sem contar a cordoalha e outras

partes do aparelho náutico. Assim, este frango, que eu

almocei agora mesmo, é o resultado de uma multidão

de esforços e lutas, executadas com o único fim de dar

mate ao meu apetite.

ASSIS, M. Memórias póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Civilização Brasiliense, 1975.

A filosofia de Quincas Borba – a Humanitas – contém

princípios que, conforme a explanação do personagem,

consideram a cooperação entre as pessoas uma forma de