Questão #13678472010

Português — interpretação de textos

A mulher pobre que chega ao caixa de um banco e nãoconsegue fazer entender sua situação - ela deve pagar umafatura de cartão de crédito que lhe foi enviado sem que pedisse,e que jamais utilizou - é um exemplo corriqueiro do poder daspalavras e da fragilidade de quem não as domina. A mulheracabará sendo despachada, sem resolver seu problema, pelaimpaciência do bancário e de todos os que estão na fila. Duascarências na mesma pessoa: a de recursos econômicos e a delinguagem. Nem o conforto de um status prestigiado, nem adesenvoltura argumentativa de um discurso.Graciliano Ramos, no romance Vidas secas, tratou afundo dessa questão: suas personagens, desamparados retirantesnordestinos, lutam contra as privações básicas: a de água, ade comida... e a de linguagem. O narrador desse romance é umescritor ultraconsciente de seu ofício: sabe que muito da nossaidentidade profunda e da nossa identificação social guarda umarelação direta com o domínioque temos ou deixamos de ter daspalavras. Não há, para Graciliano, neutralidade em qualquerdiscurso: um falante carrega consigo o prestígio ou a humilhaçãodo que é ou não é capaz de articular.Nas escolas, o ensino da língua não pode deixar deconsiderar essa intersecção entre linguagem e poder. O professor,bem armado com sua refinada metalinguagem, pode,evidentemente, reconhecer que há uma específica suficiênciana comunicação que os alunos já trazem consigo; mas terá eleo direito de não prepará-los para um máximo de competência,que inclui não apenas uma plena exploração funcional dalíngua, mas também o acesso à sua mais alta representação,que está na literatura?(Juvenal Mesquita, inédito)

Atente para as seguintes afirmações: I. No 1º parágrafo, insinua-se que o conforto de um status prestigiado e a desenvoltura argumentativa de um discurso não costumam ocorrer concomitantemente. II. No 2º parágrafo, afirma-se que, para Graciliano Ramos, não existe neutralidade em qualquer discurso porque o poder das palavras não guarda necessária relação com outras esferas do poder. III. No 3º parágrafo, admite-se que deixar um aluno estacionado no patamar de um uso linguístico que já é o seu constitui um modo de privá-lo tanto do poder objetivo como do caráter artístico da linguagem. Em relação ao texto, está correto APENAS o que se afirma em