Questão #13086352012

Português — juros simples

Leia o texto do repórter José Datena, para responder às questões

de números 19 a 25.

Seu Firmino e o STF

Quando eu era um moleque, meu caminho para a escola

passava todos os dias bem na frente da quitanda do Seu Firmino,

um português de bigodes e sotaque fartos, que costumava ficar

na porta do estabelecimento para acompanhar aquela romaria

de muitas mães, avós e tias e poucos pais (eram outros tempos)

levando a meninada para a escola.

O velho Firmino ficava na quitanda, entre alfaces e chicórias,

batatas e laranjas e aconselhava todo moleque, como eu, que passava

com uniforme escolar: Não esqueças o guarda-chuva. Podia

estar um sol de rachar ou podíamos estar atravessando a maior

estiagem, não importava: Seu Firmino não cansava de repetir que

a gente tinha de estar pronto para um pé-d'água. Confesso que

passei anos escutando e não dando ouvidos para a ladainha. Até o

dia em que fui surpreendido por uma tempestade no caminho de

volta para casa. Já era grande o suficiente para ir e voltar sozinho,

mas não para escutar o conselho. Fui parar, encharcado e despenteado,

justamente na quitanda. Lembro que o velho Firmino pegou

uma toalha e esfregou primeiro minha cabeça, depois os braços.

Logo recuperei a temperatura e fiquei esperando a chuva passar.

Assim que a chuva deu um tempo, eu me preparei para sair. Fui

detido pelo velho quitandeiro. Ele me deu um guarda-chuva desses

antigos, com cabo de madeira, e falou com mais propriedade do

que nunca: Não esqueças mais o guarda-chuva.

Foi o que aconteceu. Peguei uma certa mania de ter sempre

à mão um guarda-chuva.

Lembrei dessa história porque muita gente me chama de chato

por ser repetitivo em certas coisas. Reconheço que devo mesmo

chatear muita gente com essa minha particularidade. Sou repetitivo,

sim. Porque num país como o nosso, só repetindo verdades

à exaustão a gente tem chance de ser ouvido! Robert Collier,

autor de livros de autoajuda, garantia que a repetição constante

leva à convicção.

O fato é que fiquei feliz quando o STF decidiu que dirigir

embriagado é crime. E fiquei contente porque foi uma dessas coisas

que repeti, repeti e repeti, especialmente no Brasil Urgente,

programa que apresento na TV.

(Diário de S.Paulo, 06 de novembro de 2011. Adaptado)

Ao afirmar que – Já era grande o suficiente para ir e voltar sozinho, mas não para escutar o conselho. (2.º parágrafo) – o autor sugere que