Questão #12314602013

Português — morfologia

Leia o texto abaixo e responda às questões

propostas.

Texto 2:

Se os senhores algum dia quiserem encontrar

um representante da grande nação brasileira, não o

procurem nunca na sua residência. Seja a que hora

for, de manhã, ao amanhecer mesmo, à hora do

jantar, quando quiserem enfim, se procurarem, o

criado há de dizer-lhes secamente: Não está.

Falo-lhes de experiência própria, porque, durante as

inúmeras vezes, a toda a hora do dia, em que fui ao

Hotel Términus procurar o Deputado Castro,

apalpando a carta do coronel, tive o desprazer de

ouvir estas duas palavras do porteiro indiferente. Nas

últimas vezes, antes mesmo de acabar a pergunta, já

o homenzinho respondia invariavelmente da mesma

desesperadora forma negativa.

É bem fácil de imaginar com que sorte de

cogitações eu ia passando esses dias. O meu

dinheiro dentro em breve, pago o hotel, ficaria

reduzido a alguns mil réis insignificantes. Não

conhecia ninguém, não tinha a mínima relação que

me pudesse socorrer, dar-me qualquer cousa, casa

ao menos, até que me arranjasse. Saíra de meus

penates, cheio de entusiasmo, certo de que aquela

carta, mal fosse apresentada, me daria uma situação

qualquer. Era essa a minha convicção, dos meus e do

próprio coronel. Tinha-se lá, por aquelas alturas, em

grande conta a força do doutor Castro nas decisões

dos governantes e a influência do velho fazendeiro

sobre o ânimo do deputado.

Não era ele o seu grande eleitor? Não era ele

o seu banqueiro para os efeitos eleitorais? E nós, lá

na roça, tínhamos quase a convicção de que o

verdadeiro deputado era o coronel e o doutor Castro

um simples preposto seu. As minhas idas e vindas ao

hotel repetiam-se e não o encontrava. Vinham-me

então os terrores sombrios da falta de dinheiro, da

falta absoluta. Voltava para o hotel taciturno,

preocupado, cortado de angústias. Sentia-me só, só

naquele grande a imenso formigueiro humano, só,

sem parentes, sem amigos, sem conhecidos que uma

desgraça pudesse fazer amigos. Os meus únicos

amigos eram aquelas notas sujas encardidas; eram

elas o meu único apoio; eram elas que me evitavam

as humilhações, os sofrimentos, os insultos de toda a

sorte; e quando eu trocava uma delas, quando as

dava ao condutor do bonde, ao homem do café, era

como se perdesse um amigo, era como se me

separasse de uma pessoa bem amada... Eu nunca

compreendi tanto a avareza como naqueles dias [em]

que dei alma ao dinheiro, e o senti tão forte para os

elementos da nossa felicidade externa ou interna...

A minha ignorância de viver e falta de

experiência quase deixavam transparecer a natureza

das minhas preocupações. O gerente do hotel

pareceu-me que as farejava. De quando em quando,

procurava na conversação amedrontar-me com o seu

poderio, proveniente de estreitas relações que

mantinha com as autoridades. Assim entendi ser o

sentido das anedotas que contava. Uma vez narrou

ele depois de uma longa hospedagem, um hóspede

quisera furtar-se ao pagamento. Não tivera dúvidas,

fora ao delegado auxiliar, um seu amigo, o doutor

Felício, contara-lhe o caso e o homem teve que pagar,

se quis tirar as malas. Com ele era assim; não dormia.

Nada de justiça, de pretorias... Qual! Com a polícia a

cousa vai mais depressa, a questão é ter amigos e ele

tinha-os excelentes; e, em seguida, interrogando-me

diretamente: O senhor não viu, ontem, aquele homem

gordo que jantou na cabeceira? É o escrivão da X.

Os escrivões, fique o senhor sabendo, é que são as

verdadeiras autoridades. Os delegados não fazem

senão o que eles querem; tecem os pauzinhos e... E o

italiano rematou com um olhar canalha aquela sua

informação sobre a onipotência dos escrivães.

(BARRETO, Lima. .

7ª ed.: São Paulo, Brasiliense, 1978, p. 55-6.)

Recordações do escrivão

No último parágrafo, ocorrem duas formas de plural para ESCRIVÃO, o que se deve ao fato de que: