Questão #12042762014

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Retrato falado

Uma das coisas que não entendo é retrato falado. Em filme policial americano, no retrato falado sai sempre a cara

do criminoso, até o último cravo. Mas na vida real, que nada tem de filme americano, o retrato falado nunca tem o

menor parentesco com a cara do cara que acaba sendo preso.

- Atenção. Aqui está um retrato falado do homem que estamos procurando. Foi feito de acordo com a descrição de

dezessete testemunhas do crime. Decorem bem a sua fisionomia. Está decorada?

- Sim, senhor.

- Então, procurem exatamente o contrário deste retrato. Não podem errar.

Imagino os problemas que não deve ter o artista encarregado dos retratos falados na polícia. Um homem sensível

obrigado a conviver com a imprecisão de testemunhas e as rudezas da lei.

- O senhor mandou me chamar, delegado?

- Mandei, Lúcio. É sobre o seu trabalho. Os seus últimos retratos falados...

- Eu sei, eu sei. É que estou numa fase de transição, entende? Deixei o hiper-realismo e estou experimentando com

uma volta as formas orgânicas e...

- Eu compreendo, Lúcio. Mas da última vez que usamos um retrato falado seu, a turma prendeu um orelhão.

O pior deve ser as testemunhas que não sabem descrever o que viram.

- O nariz era assim, um pouco, mais ou menos como seu, inspetor.

- E as sobrancelhas? As sobrancelhas são importantes.

- Sobrancelhas? Não sei... como as suas, inspetor.

- E os olhos?

- Os olhos claros, como os...

- Já sei. Os meus. O queixo?

- Parecido com o seu.

- Inspetor, onde é que o senhor estava na noite do crime?

- Cala a boca e desenha, Lúcio.

E há os indecisos.

- Era chinês.

- Tem certeza?

- Ou era chinês ou tinha dormido mal.

E deve haver a testemunha literária!

- Nariz adunco, como de uma ave de rapina. A testa escondida pelos cabelos em desalinho. Pelos seus olhos, vez

que outra, passava uma sombra como uma má lembrança. A boca de uma sensualidade agressiva mas ao mesmo tempo

tímida, algo reticente nos cantos, com uma certa arrogância no lábio superior que o lábio inferior refutava e o queixo

desmentia. Narinas vívidas, como as de um velho cavalo. Mais não posso dizer porque só o vi por dois segundos.

Os sucintos:

- Era o Charles Bronson com o nariz da Maria Alcina.

- Tipo Austregésilo de Athayde, mas com bigodes mexicanos.

- Uma miniatura de cachorro boxer, comandante da Varig e beque do Madureira.

- Bota aí: a testa do Jaguar, o nariz do Mitterrand, a boca do porteiro do antigo Fred's e o queixo da Virgínia Woolf.

Uma orelha da Jaqueline Kennedy e a outra, estranhamente, do neto do Getty.

- A Emilinha Borba de barba depois de um mal voo na ponte aérea com o Nélson Ned.

E há as surpresas.

- Bom, era um cara comum. Sei lá. Nariz reto, boca do tamanho médio, sem bigode. Ah, e um olho só, bem no meio

da testa.

O ciclope ataca outra vez!

Experimente você dar as características para o retrato falado de alguém.

- Os olhos de Sandra Brea. Um pouco menos sobrancelha. O nariz de Claire Bloom de 15 anos atrás. A boca de

Cláudia Cardinale. O queixo da Elizabeth Savala. Um seio de Laura Antonelli e outro da Sydne Rome. As pernas da Jane

Fonda.

- Feito. Mas quem é essa?

- Não sei, mas se encontrarem, tragam-na para mim depressa. E vival

(Luis Fernando Veríssimo. Retrato falado. In: PINTO, Manuel da Costa. Crônica brasileira contemporânea. São Paulo: Salamandra, 2008.)

No trecho Pelos seus olhos, vez que outra, passava uma sombra como uma må lembrança. { 259%), a palavra

destacada introduz uma