Questão #11971212014

Português

Atenção: As questões de números 11 a 16 referem-se ao

texto que segue.

A floresta das parteiras

Elas nasceram do ventre úmido da Amazônia, do extremo

norte do Brasil, do Estado ainda desgarrado do noticiário chamado

Amapá. O país não as escuta porque perdeu o ouvido para

os sons do conhecimento antigo, a toada de suas cantigas. Muitas

desconhecem as letras do alfabeto, mas leem a mata, a água e o

céu. Emergiram dos confins de outras mulheres com o dom de

pegar menino. Sabedoria que não se aprende, não se ensina nem

mesmo se explica. Acontece apenas. Esculpidas por sangue de

mulher e água de criança, suas mãos aparam um pedaço do Brasil.

O grito feminino ecoa do território empoleirado no cocuruto

do mapa para lembrar ao país que nascer é natural. Não depende

de engenharia genética ou operação cirúrgica, não tem cheiro de

hospital. Para as parteiras da floresta, que guardaram a tradição

graças ao isolamento geográfico de seu berço, é mais fácil

compreender que um boto irrompa do igarapé para fecundar moça

donzela do que aceitar que uma mulher marque dia e hora para

arrancar o filho à força. Quase toda a população do Amapá, menos

de meio milhão de habitantes, chega ao mundo pelas mãos de

setecentas pegadoras de menino.

Encarapitadas em barcos ou tateando caminhos com os

pés, a índia Dorica, a cabocla Jovelina e a quilombola Rossilda são

guias de uma viagem por mistérios antigos. Cruzam com Tereza e

as parteiras indígenas do Oiapoque. Unidas todas elas pela trama

de nascimentos inscritos na palma da mão. Pegar menino é ter

paciência, recita a caripuna Maria dos Santos Maciel, a Dorica, a

mais velha parteira do Amapá, com 96 anos. Parteira não tem

escolha, é chamada nas horas mortas da noite para povoar o

mundo.

(Adaptado de: BRUM, Eliane. O olho da rua: uma repórter em

busca da literatura da vida real. São Paulo: Globo, 2008, p. 19-20)

Conclui-se que a sabedoria das parteiras do Amapá é pouco valorizada no Brasil, porque