Questão #11889492014

Concursos públicos

Foi por me sentir genuinamente desidentificado com

qualquer espécie de regionalismo que escrevi coisas como:

Não sou brasileiro, não sou estrangeiro / Não sou de nenhum

lugar, sou de lugar nenhum/ Riquezas são diferenças.

Ao mesmo tempo, creio só terem sido possíveis tais formulações

pessoais pelo fato de eu haver nascido e vivido em

São Paulo. Por essa ser uma cidade que permite, ou mesmo

propicia, esse desapego para com raízes geográficas, raciais,

culturais. Por eu ver São Paulo como um gigante liquidificador

onde as informações diversas se misturam, gerando novas interpretações,

exceções.

Por sua multiplicidade de referências étnicas, linguísticas,

culturais, religiosas, arquitetônicas, culinárias...

São Paulo não tem símbolos que dêem conta de sua diversidade.

Nada aqui é típico daqui. Não temos um corcovado,

uma arara, um cartão postal. São Paulo são muitas cidades em

uma.

Sempre me pareceram sem sentido as guerras, os fundamentalismos,

a intolerância ante a diversidade.

Assim, fui me sentindo cada vez mais um cidadão do

planeta. Acabei atribuindo parte desse sentimento à formação

miscigenada do Brasil.

Acontece que a miscigenação brasileira parece ter se

multiplicado em São Paulo, num ambiente urbano que foi

crescendo para todos os lados, sem limites.

Até a instabilidade climática daqui parece haver contribuído

para essa formação aberta ao acaso, à imprevisibilidade

das misturas.

Ao mesmo tempo, temos preservados inúmeros nomes

indígenas designando lugares, como Ibirapuera, Anhangabaú,

Butantã etc. Primitivismo em contexto cosmopolita, como soube

vislumbrar Oswald de Andrade.

Não é à toa que partiram daqui várias manifestações

culturais.

São Paulo fragmentária, com sua paisagem recortada

entre praças e prédios; com o ruído dos carros entrando pelas

janelas dos apartamentos como se fosse o ruído longínquo do

mar; com seus crepúsculos intensificados pela poluição; seus

problemas de trânsito, miséria e violência convivendo com suas

múltiplas ofertas de lazer e cultura; com seu crescimento indiscriminado,

sem nenhum planejamento urbano; com suas belas

alamedas arborizadas e avenidas de feiura infinita.

(Adaptado de: ANTUNES, Arnaldo. Alma paulista. Disponível

em http://www.arnaldoantunes.com.br).

O verbo flexionado no plural que também estaria corretamente flexionado no singular, sem que nenhuma outra alteração fosse feita, encontra–se em: