Questão #11849042014

Concursos públicos

Leia o texto para responder às questões de números 11 a 17.

O que é ler?

Começo distraidamente a ler um livro. Contribuo com alguns

pensamentos, julgo entender o que está escrito porque

conheço a língua e as coisas indicadas pelas palavras, assim

como sei identificar as experiências ali relatadas. Escritor e leitor

possuem o mesmo repertório disponível de palavras, coisas,

fatos, experiências, depositados pela cultura instituída e sedimentados

no mundo de ambos.

De repente, porém, algumas palavras me pegam. Insensivelmente,

o escritor as desviou de seu sentido comum e

costumeiro e elas me arrastam, como num turbilhão, para um

sentido novo, que alcanço apenas graças a elas. O escritor me

invade, passo a pensar de dentro dele e não apenas com ele, ele

se pensa em mim ao falar em mim com palavras cujo sentido

ele fez mudar. O livro que eu parecia soberanamente dominar

apossa-se de mim, interpela-me, arrasta-me para o que eu não

sabia, para o novo. O escritor não convida quem o lê a reencontrar

o que já sabia, mas toca nas significações existentes para

torná-las destoantes, estranhas, e para conquistar, por virtude

dessa estranheza, uma nova harmonia que se aposse do leitor.

Ler, escreve Merleau-Ponty, é fazer a experiência da retomada

do pensamento de outrem através de sua palavra, é uma

reflexão em outrem, que enriquece nossos próprios pensamentos.

Por isso, prossegue Merleau-Ponty, começo a compreender

uma filosofia deslizando para dentro dela, na maneira de

existir de seu pensamento, isto é, em seu discurso.

(Marilena Chauí, Prefácio. Em: Jairo Marçal,

Antologia de Textos Filosóficos. Adaptado)

Com a frase O escritor me invade, passo a pensar de dentro dele e não apenas com ele... (2° parágrafo), a autora revela que