Concursos públicos
Leia o texto para responder às questões de números 08 a 11.
A pátria de ponteiros
Numa demonstração de inequívoca coragem, Fritz pediu
uma feijoada. Eu comentei que, aparentemente, ele não estava
tendo dificuldades de adaptação. O alemão disse que não.
Por conta do seu trabalho, viajava o mundo todo. A única
coisa que lhe incomodava, no Brasil, era nunca saber quando
as pessoas chegariam aos encontros. O pessoa manda mensagem,
diz 'tô chegando!', mas pessoa chega só quarrrenta minutos
depois. Então me fez a pergunta que só poderia vir de
um compatriota de Emanuel Kant*: Quando a brrrasileirrro diz
'tô chegando!', em quanto tempo brrrrasileirrro chega?.
Pensei em mentir, em dizer que uns atrasam, mas outros aparecem
rapidinho. Achei, porém, que em nome de nossa dignidade
– ali, naquela mesa, eu era a pátria de ponteiros – o melhor
seria falar a verdade: Fritz, é assim: quando o brasileiro diz
'tô chegando!' é porque, na real, ele tá saindo. Tentei atenuar o
assombro do alemão: veja, não é exatamente mentira, afinal, ao
pôr o pé pra fora de casa dá-se início ao processo de chegada,
assim como ao sair do útero se começa a caminhar para a cova.
É só uma questão de perspectiva.
Mas e quando o pessoa diz 'tô saindo!'? Expliquei que as
declarações do brasileiro, no que tange ao atraso, estão sempre
uma etapa à frente da realidade. Se a pessoa diz que está chegando,
é porque tá saindo, e se diz que tá saindo, é porque ainda
precisa tomar banho, tirar a roupa da máquina e botar comida
pro cachorro.
Fritz ficou pensativo. E o 'cinco minutinhos'?
Já o cinco minutinhos! é um pouco mais vago. Pode significar
tanto que o brasileiro está a cem metros do destino quanto
a 27 quilômetros. Às vezes, cinco minutinhos demoram muito
mais do que quinze, mais do que uma hora; há casos, até, em que
a pessoa a cinco minutinhos jamais aparece.
Fritz ficou olhando o chope, imaginando, talvez, na espuma
branca, a tomografia multicolor desses cérebros tropicais. Senti
que era o momento de mudar de assunto, de mostrar ressonâncias,
digamos, mais magnéticas do nosso país. Chamei o gar-
çom. Chefe, a gente pediu uma feijoada, já faz um tempinho...
Tá chegando, amigo, tá chegando!
(Antonio Prata. Folha de S.Paulo, 23.02.2014. Adaptado)
* Emanuel Kant: filósofo de origem alemã
Com base no último parágrafo e na sua relação com o texto,
pode-se concluir corretamente que
Uma questão respondida. E as próximas?
Crie sua conta para acompanhar acertos, erros e receber recomendações no Meu Próximo Passo.
Criar conta grátis