Questão #11780102014

Português — crase

Fidelidade ou lealdade?

IVAN MARTINS

Nos últimos dias, ando apaixonado pela palavra lealdade”. Deve ser por causa de um

livro que estou terminando, um romance sobre antigos amigos e amantes que voltam a

se encontrar e precisavam acertar suas diferenças. Eles já não se gostam, mas confiam

um no outro. Eles deixaram de se amar, mas ainda se protegem mutuamente. Isso é

lealdade, em uma de suas formas mais bonitas. Lealdade ao que fomos e sentimos.

Ao ler o romance, me ocorreu que amar é fácil. Tão fácil que pode ser inevitável. A

gente ama quem não merece, ama quem não quer nosso amor, ama a despeito de nós

mesmos. Tem a ver com hormônios, aparência e sensações que não somos capazes de

controlar. A lealdade não. Ela não é espontânea e nem barata. Resulta de uma decisão

consciente e pode custar caro. Ela é uma forma de nobreza e tem a ver com sacrifício.

Não é uma obrigação, é uma escolha que mistura, necessariamente, ideias e

sentimentos. Na lealdade talvez se manifeste o melhor de nós. (...)

A lealdade está amparada em valores, não apenas em sentimentos. É fácil cuidar de

alguém quando se está apaixonado. Mais fácil que respirar, na verdade. Mas o que se

faz quando os sentimentos desaparecem – somem com eles todas as responsabilidades

em relação ao outro? Sim, ao menos que as pessoas sejam movidas por algo mais que

a mera atração. Se não partilham nada além do desejo, nada resta depois do romance.

Mas, se houver cumplicidades maiores, então se manifesta a lealdade. (...)

O romantismo, embora a gente não o veja sempre assim, é uma forma exacerbada de

egoísmo. Meu amor, minha paixão, minha vida. Minha família, inclusive. Tem a ver com

desejo, posse e exclusividade, que tornam a infidelidade insuportável, a perda

intolerável. As pessoas matam por isso todos os dias. Porque amam. É um sentimento

que não exige elevação moral e pode colocar à mostra o pior de nós mesmos, embora

pareça apenas lindo. (...)

Talvez devêssemos pensar de forma mais generosa. Talvez precisemos nos

apaixonar por ideias, nos ligar por compromissos, cultivar sonhos e aspirações que

estejam além dos nossos interesses pessoais. Correr riscos maiores que o de ser traído

ou demitido. O idealismo, que tem sido uma força de mudança na conduta humana,

precisa ser resgatado. Não apenas para salvar o planeta e a sociedade, mas para nos

dar, pessoalmente, alguma forma de esperança. A fidelidade nos leva até a esquina. A

lealdade talvez nos conduza mais longe, bem mais longe.

Disponível em: Acesso em

16/07/2014.

Marque a alternativa cujo sinal indicativo de crase seja OBRIGATÓRIO, preenchendo CORRETAMENTE a lacuna: