Questão #11693262014

Concursos públicos

Leia o texto para responder às questões de números 08 a 11.

A pátria de ponteiros

Numa demonstração de inequívoca coragem, Fritz pediu

uma feijoada. Eu comentei que, aparentemente, ele não estava

tendo dificuldades de adaptação. O alemão disse que não.

Por conta do seu trabalho, viajava o mundo todo. A única

coisa que lhe incomodava, no Brasil, era nunca saber quando

as pessoas chegariam aos encontros. O pessoa manda mensagem,

diz 'tô chegando!', mas pessoa chega só quarrrenta minutos

depois. Então me fez a pergunta que só poderia vir de

um compatriota de Emanuel Kant*: Quando a brrrasileirrro diz

'tô chegando!', em quanto tempo brrrrasileirrro chega?.

Pensei em mentir, em dizer que uns atrasam, mas outros aparecem

rapidinho. Achei, porém, que em nome de nossa dignidade

– ali, naquela mesa, eu era a pátria de ponteiros – o melhor

seria falar a verdade: Fritz, é assim: quando o brasileiro diz

'tô chegando!' é porque, na real, ele tá saindo. Tentei atenuar o

assombro do alemão: veja, não é exatamente mentira, afinal, ao

pôr o pé pra fora de casa dá-se início ao processo de chegada,

assim como ao sair do útero se começa a caminhar para a cova.

É só uma questão de perspectiva.

Mas e quando o pessoa diz 'tô saindo!'? Expliquei que as

declarações do brasileiro, no que tange ao atraso, estão sempre

uma etapa à frente da realidade. Se a pessoa diz que está chegando,

é porque tá saindo, e se diz que tá saindo, é porque ainda

precisa tomar banho, tirar a roupa da máquina e botar comida

pro cachorro.

Fritz ficou pensativo. E o 'cinco minutinhos'?

Já o cinco minutinhos! é um pouco mais vago. Pode significar

tanto que o brasileiro está a cem metros do destino quanto

a 27 quilômetros. Às vezes, cinco minutinhos demoram muito

mais do que quinze, mais do que uma hora; há casos, até, em que

a pessoa a cinco minutinhos jamais aparece.

Fritz ficou olhando o chope, imaginando, talvez, na espuma

branca, a tomografia multicolor desses cérebros tropicais. Senti

que era o momento de mudar de assunto, de mostrar ressonâncias,

digamos, mais magnéticas do nosso país. Chamei o gar-

çom. Chefe, a gente pediu uma feijoada, já faz um tempinho...

Tá chegando, amigo, tá chegando!

(Antonio Prata. Folha de S.Paulo, 23.02.2014. Adaptado)

* Emanuel Kant: filósofo de origem alemã

Considerando o contexto, assinale a alternativa que apresenta, entre parênteses, um sentido oposto para a expressão em destaque.