Questão #11668732014

Português

ANO NOVO, VIDA NOVA

Moacyr Scliar

1º Vida é dor, e acordo com dor de dentes. O dia é

belíssimo, um sol de verão invade o barraco; quanto a

mim, choro de dor. Choro também por outras razões,

mas principalmente de dor.

2º Vida é combate. De nada me adianta ficar

deitado. Levanto-me e começo a fazer ginástica. Ao

fletir o tronco, dou com o bilhete da Francisca, em cima

da cadeira.

3º Escrever é uma conquista recente de Francisca,

que frequenta, com muito sacrifício, um curso noturno

de alfabetização. A caligrafia melhora dia a dia,

constato, desdobrando a mensagem que, infelizmente,

não me dá outros motivos de satisfação: Francisca

acaba de me deixar, optando por um estivador – o que

afinal de contas está bem de acordo com a falta de

sensibilidade dela, mas me cria problemas: quem vai

cozinhar? Quem vai arrumar o barraco? Quem vai me

arranjar dinheiro para o cinema? Ai, vida é

preocupação.

4º Mas a vida também é alegria. O Sol brilha, a

ginástica me faz bem, e, se Francisca me deixou,

mulheres não me faltarão. Aliás, não guardo nenhum

rancor a Francisca. Ela nunca esteve à minha altura.

Porque, se hoje moro em barraco, é por opção: fui

criado por um tio rico, e nada me faltou a não ser o

tédio. Por causa deste me tornei hippie. Depois resolvi

profissionalizar-me e me tornei pobre de verdade. Foi

assim que vim morar neste barraco, a princípio sozinho;

mais tarde trouxe a Francisca, então uma simples

empregada doméstica, uma analfabeta. Agora ela me

deixou. Mas não tem nada, vamos em frente, amanhã

será outro dia.

5º A dor de dentes, momentaneamente aliviada,

retorna feroz. Preciso ir ______ dentista, concluo.

Cachaça com fumo não vai me adiantar, principalmente

se a gente não tem – como é o meu caso – nem cachaça

nem fumo. Nestas horas me arrependo um pouco de ter

deixado o lar do meu tio. Pelo menos, não deveria ter

jogado fora o cartão de crédito que ele me deu.

6º Decido ir ao dentista da associação beneficente

da vila, que trata os pobres de graça. O dentista é uma

bela pessoa, gordinho e simpático; examina-me

rapidamente e decide que o caso é de extração. Posso

escolher, informa-me; extração com anestesia (o que

me custará uma módica quantia), ou sem. Escolho sem,

e berro quando o dente é arrancado. O dentista pensa

que eu grito de dor, mas se engana; berro de satisfação

pelo dinheiro poupado. Gastar só para me tornar

insensível? Absurdo. Vida é sofrimento; sofrer é tragar

a vida a grandes goles, conforme explico ao dentista ao

me despedir, com a boca cheia de sangue.

7º Cuspindo glóbulos pelos caminhos empoeirados

da vila, desço _____ cidade, com o propósito de

arranjar um café, senão o da manhã, pelo menos o da

tarde: são quase três horas.

8º O movimento nas ruas do centro me surpreende.

Uma quantidade enorme de pessoas, nas ruas, nas lojas.

E aí me dou conta: é 31 de dezembro. O último dia do

ano!

9º Vida é emoção. Lembro-me de como eu e o tio

comemorávamos a passagem do ano: muito doce, muita

champanha. Meu tio, esqueci-me ______ dizer, era

importador de vinhos finos, de modo que o champanha

era sempre do melhor, embora eu custasse um pouco a

me embebedar com ele. A noite de 31 de dezembro era

de sonhos e esperanças. Lembrando-me disso sento na

sarjeta e choro, choro...

Analise as afirmações sobre a forma verbal

retiradas do texto Posso escolher (6º parágrafo):

I – A forma verbal traduz uma ideia de

possibilidade.

II – Poderia ser substituída pela forma simples

escolha.

III – O primeiro verbo é auxiliar de modo.

Quais afirmativas estão corretas?