Questão #11502012015

Português

Leia o texto II para responder às questões de 11 a 16.

Quando se lê ou se ouve falar sobre fomes coletivas,

sobre angustiadas massas humanas atacadas de epidemias de

fome, definhando e morrendo à falta de um pouco de comida,

as primeiras imagens que assaltam a nossa consciência de

homens civilizados são imagens típicas do Extremo Oriente.

Imagens evocativas das superpovoadas terras asiáticas com

seus enxames humanos se agitando numa estéril e perpétua

luta contra o ameaçador espectro da fome. Massas pululantes

de esquálidos coolies chineses. Manchas compactas de

ascéticos indianos envolvidos em suas longas túnicas,

lembrando uma procissão de múmias. Desesperadas multidões

comprimidas nas sinuosas ruelas das cidades orientais,

atoladas na lama imunda dos arrozais, asfixiadas de poeira nas

estradas da China, estorricadas pelas secas periódicas.

Multidões famintas que revelam em seus rostos, em seus

gestos e em suas atitudes fatigadas a marca sinistra da fome.

Tais são os cenários e os personagens a que nossa imaginação

sempre recorreu para dar vida aos dramas da fome coletiva.

Hoje, àquelas clássicas imagens se vêm juntar outras de

maior atualidade. Imagens dos campos de concentração e das

cidades e dos campos europeus devastados pela tirania nazi

durante a última guerra mundial. Imagens de homens, mulheres

e crianças perambulando como fantasmas num mundo perdido,

com os olhos esbugalhados flutuando fora das órbitas e com os

molambos de vestuários balançando grotescamente sobre a

armação dos esqueletos saltando à flor da pele.

Para aqueles que têm conhecimento da fome apenas

através do noticiário dos jornais, reduzem-se a estas duas

grandes regiões geográficas – o Oriente exótico e a Europa

devastada – as áreas de distribuição da fome, atuando como

calamidade social. Na realidade, a fome coletiva é um

fenômeno social bem mais generalizado. É um fenômeno

geograficamente universal, não havendo nenhum continente

que escape à sua ação nefasta. Toda a terra dos homens tem

sido também até hoje terra da fome. Mesmo nosso continente,

chamado o da abundância e simbolizado até hoje nas lendas do

Eldorado, sofre intensamente o flagelo da fome. E, se os

estragos desse flagelo na América não são tão dramáticos

como sempre foram no Extremo Oriente, nem tão espetaculares

como se apresentaram nos últimos anos na Europa, nem por

isso são menos trágicos, visto que, entre nós, esses estragos se

fazem sentir mais sorrateiramente, minando a nossa riqueza

humana numa persistente ação destruidora, geração após

geração.

É preciso que se confesse corajosamente que a terra da

promissão, para a qual foram atraídos, só no século passado,

cem milhões de imigrantes europeus, que procuravam fugir às

garras da pobreza, também é uma terra onde se passa fome,

onde se vive lutando contra a fome, onde milhões de indivíduos

morrem de fome. A pouca gente que habita continentes

distantes poderia ocorrer a ideia de que a América, com suas

enormes reservas naturais, na maior parte inexploradas, com

tanta terra à disposição de tão pouca gente e com uma larga

faixa do território ocupada pelo povo mais industrioso e ativo do

mundo – os americanos do norte – não dispõe do mínimo

indispensável de alimentos para satisfazer as necessidades de

cada um dos seus 350 milhões de habitantes. No entanto, a

verdade é que estamos muito longe deste ideal.

DE CASTRO, J. Geografia da fome. Casa do Estudante do Brasil, 1952.

No trecho: É um fenômeno geograficamente universal, não havendo nenhum continente que escape à sua função nefasta”, o termo destacado só não equivale semanticamente a: