Questão #11410092011

Português

Leia o texto para responder às questões de números 01 a 07.

A morte do narrador

Recentemente recebi um e–mail de uma leitora perguntando

a razão de eu ter, segundo ela, uma visão tão dura para

com os idosos. O motivo da sua pergunta era eu ter dito, em

uma de minhas colunas, que hoje em dia não existiam mais

vovôs e vovós, porque estavam todos na academia querendo

parecer com seus netos.

Claro, minha leitora me entendeu mal. Mas o fato de ela

ter me entendido mal, o que acontece com frequência quando

se discute o tema da velhice, é comum, principalmente porque

o próprio termo velhice” já pede sinônimos politicamente

corretos, como terceira idade”, melhor idade”, maturidade”,

entre outros.

Uma característica do politicamente correto é que, quando

ele se manifesta num uso linguístico específico, é porque esse

uso se refere a um conceito já considerado como algo ruim. A

marca essencial do politicamente correto é a hipocrisia articulada

como gesto falso, ideias bem comportadas.

Voltando à velhice. Minha leitora entendeu que eu dizia

que idosos devem se afundar na doença, na solidão e no

abandono, e não procurar ser felizes. Mas, quando eu dizia

que eles estão fugindo da condição de avós, usava isso como

metáfora da mentira (politicamente correta) quanto ao medo

que temos de afundar na doença, antes de tudo psicológica,

devido ao abandono e à solidão, típicos do mundo contemporâneo.

Minha crítica era à nossa cultura, e não às vítimas

dela. Ela cultua a juventude como padrão de vida e está intimamente

associada ao medo do envelhecimento, da dor e

da morte. Sua opção é pela negação”, traço de um dos sintomas

neuróticos descritos por Freud.

Walter Benjamim, filósofo alemão do século XX, dizia que

na modernidade o narrador da vida desapareceu. Isso quer

dizer que as pessoas encarregadas, antigamente, de narrar

a vida e propor sentido para ela perderam esse lugar. Hoje os

mais velhos querem aprender” com os mais jovens (aprender

a amar, se relacionar, comprar, vestir, viajar, estar nas redes

sociais). Esse fenômeno, além de cruel com o envelhecimento,

é também desorganizador da própria juventude. Ouço cotidianamente,

na sala de aula, os alunos demonstrarem seu desprezo

por pais e mães que querem aprender a viver com eles.

Alguns elementos do mundo moderno não ajudam a combater

essa desvalorização dos mais velhos. As ferramentas de

informação, normalmente mais acessíveis aos jovens, aumentam

a percepção negativa dos mais velhos diante do acúmulo de

conhecimento posto a serviço dos consumidores, que questionam

as verdades constituídas do passado”. A própria estrutura

sobre a qual se funda a experiência moderna – ciência, técnica,

superação de tradição – agrava a invisibilidade dos mais velhos.

Em termos humanos, o passado (que nada” serve ao mundo

do progresso) tem um nome: idoso. Enfim, resta aos vovôs e

vovós ir para a academia ou para as redes sociais.

(Luiz Felipe Pondé, Somma, agosto 2014, p. 31. Adaptado)

O termo empregado com sentido figurado está em destaque na seguinte passagem do texto: