Questão #11274672015

Governança de TI (TI)

Atenção: Considere o texto abaixo para responder às questões

de números 1 a 6.

Conselhos ao candidato

Certa vez um enamorado da Academia, homem ilustre e

aliás perfeitamente digno de pertencer a ela, escreveu-me sondando-me

sobre as suas possibilidades como candidato. Não

pude deixar de sentir o bem conhecido calefrio aquerôntico, porque

então éramos quarenta na Casa de Machado de Assis e

falar de candidatura aos acadêmicos sem que haja vaga é um

pouco desejar secretamente a morte de um deles. O consultado

poderá dizer consigo que praga de urubu não mata cavalo.

Mas, que diabo, sempre impressiona. Não impressionou ao conde

Afonso Celso, de quem contam que respondeu assim a um

sujeito que lhe foi pedir o voto para uma futura vaga:

− Não posso empenhar a minha palavra. Primeiro porque

o voto é secreto; segundo porque não há vaga; terceiro porque

a futura vaga pode ser a minha, o que me poria na posição de

não poder cumprir com a minha palavra, coisa a que jamais

faltei em minha vida.

Se eu tivesse alguma autoridade para dar conselhos ao

meu eminente patrício, dir-lhe-ia que o primeiro dever de um

candidato é não temer a derrota, não encará-la como uma

capitis diminutio, não enfezar com ela. Porque muitos dos que

se sentam hoje nas poltronas azuis do Trianon, lá entraram a

duras penas, depois de uma ou duas derrotas. Afinal a entrada

para a Academia depende muito da oportunidade e de uma

coisa bastante indefinível que se chama ambiente. Fulano?

Não tem ambiente. [...]

Sempre ponderei aos medrosos ou despeitados da

derrota que é preciso considerar a Academia com certo senso

de humour. Não tomá-la como o mais alto sodalício intelectual

do país. Sobretudo nunca se servir da palavra sodalício, a que

muitos acadêmicos são alérgicos. Em mim, por exemplo, provoca

sempre urticária.

No mais, é desconfiar sempre dos acadêmicos que prometem:

Dou-lhe o meu voto e posso arranjar-lhe mais um.

Nenhum acadêmico tem força para arranjar o voto de um colega.

Mas vou parar, que não pretendi nesta crônica escrever um

manual do perfeito candidato.

(BANDEIRA, Manuel. Poesia completa e prosa. Rio de

Janeiro: Nova Aguilar, 1993, vol. único, p. 683-684)

*aquerôntico = relativo ou pertencente a Aqueronte, um dos rios

do Inferno, atravessado pelos mortos na embarcação conduzida

pelo barqueiro Caronte.

*capitis diminutio: expressão latina de caráter jurídico empregada

para designar a diminuição de capacidade legal.

O consultado poderá dizer consigo que praga de urubu não mata cavalo”. Infere-se, a partir da referência ao dito popular, que o autor