Português
Leia o texto II para responder às questões de 11 a 16.
Quando se lê ou se ouve falar sobre fomes coletivas,
sobre angustiadas massas humanas atacadas de epidemias de
fome, definhando e morrendo à falta de um pouco de comida,
as primeiras imagens que assaltam a nossa consciência de
homens civilizados são imagens típicas do Extremo Oriente.
Imagens evocativas das superpovoadas terras asiáticas com
seus enxames humanos se agitando numa estéril e perpétua
luta contra o ameaçador espectro da fome. Massas pululantes
de esquálidos coolies chineses. Manchas compactas de
ascéticos indianos envolvidos em suas longas túnicas,
lembrando uma procissão de múmias. Desesperadas multidões
comprimidas nas sinuosas ruelas das cidades orientais,
atoladas na lama imunda dos arrozais, asfixiadas de poeira nas
estradas da China, estorricadas pelas secas periódicas.
Multidões famintas que revelam em seus rostos, em seus
gestos e em suas atitudes fatigadas a marca sinistra da fome.
Tais são os cenários e os personagens a que nossa imaginação
sempre recorreu para dar vida aos dramas da fome coletiva.
Hoje, àquelas clássicas imagens se vêm juntar outras de
maior atualidade. Imagens dos campos de concentração e das
cidades e dos campos europeus devastados pela tirania nazi
durante a última guerra mundial. Imagens de homens, mulheres
e crianças perambulando como fantasmas num mundo perdido,
com os olhos esbugalhados flutuando fora das órbitas e com os
molambos de vestuários balançando grotescamente sobre a
armação dos esqueletos saltando à flor da pele.
Para aqueles que têm conhecimento da fome apenas
através do noticiário dos jornais, reduzem-se a estas duas
grandes regiões geográficas – o Oriente exótico e a Europa
devastada – as áreas de distribuição da fome, atuando como
calamidade social. Na realidade, a fome coletiva é um
fenômeno social bem mais generalizado. É um fenômeno
geograficamente universal, não havendo nenhum continente
que escape à sua ação nefasta. Toda a terra dos homens tem
sido também até hoje terra da fome. Mesmo nosso continente,
chamado o da abundância e simbolizado até hoje nas lendas do
Eldorado, sofre intensamente o flagelo da fome. E, se os
estragos desse flagelo na América não são tão dramáticos
como sempre foram no Extremo Oriente, nem tão espetaculares
como se apresentaram nos últimos anos na Europa, nem por
isso são menos trágicos, visto que, entre nós, esses estragos se
fazem sentir mais sorrateiramente, minando a nossa riqueza
humana numa persistente ação destruidora, geração após
geração.
É preciso que se confesse corajosamente que a terra da
promissão, para a qual foram atraídos, só no século passado,
cem milhões de imigrantes europeus, que procuravam fugir às
garras da pobreza, também é uma terra onde se passa fome,
onde se vive lutando contra a fome, onde milhões de indivíduos
morrem de fome. A pouca gente que habita continentes
distantes poderia ocorrer a ideia de que a América, com suas
enormes reservas naturais, na maior parte inexploradas, com
tanta terra à disposição de tão pouca gente e com uma larga
faixa do território ocupada pelo povo mais industrioso e ativo do
mundo – os americanos do norte – não dispõe do mínimo
indispensável de alimentos para satisfazer as necessidades de
cada um dos seus 350 milhões de habitantes. No entanto, a
verdade é que estamos muito longe deste ideal.
DE CASTRO, J. Geografia da fome. Casa do Estudante do Brasil, 1952.
Considerando a leitura do primeiro parágrafo do texto, bem como as orientações da prescrição gramatical no que se refere a textos escritos na modalidade padrão da Língua Portuguesa, assinale a alternativa correta.
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