Questão #14988362006

Português

Atenção: As questões de números 1 a 15 referem-se ao texto

seguinte.

Vocações

Na época do vestibular, minha sobrinha resolveu optar

pelo curso de Enfermagem. – Por que não Medicina? – foi a

infalível pergunta de muitos parentes e amigos. Moça paciente,

explicou que não queria ser médica, queria ser enfermeira.

Formou-se com brilho, fez proveitoso e bem sucedido estágio e

hoje trabalha em um grande hospital de São Paulo. Mas ainda

tem, vez ou outra, de explicar por que não preferiu ser médica.

Muita gente não leva a sério essa tal de vocação. Ela

levou. Poderia ter entrado, sim, no curso de Medicina: sua

pontuação no vestibular deixou isso claro. Mas alguma coisa

dentro dela deve ter-lhe dito: serei uma ótima enfermeira. E

assim foi. Confesso que a admiro por ter seguido essa voz

interior que nos chama para este caminho, e não para aquele.

Poucas pessoas têm tal discernimento quanto ao que

efetivamente querem ser. Em geral são desviadas dessa voz

porque acabam cumprindo expectativas já prontas, mais

convencionais. Calculam as vantagens, pecuniárias ou relativas

ao status, fazem contas, avaliam objetivamente as opções e

acabam decidindo pelo que parece ser o mais óbvio. Mas se

esquecem, justamente, da mais óbvia pergunta: Serei feliz? É

exatamente isso o que eu quero? Da falta desse fecundo

momento de interrogação saem os profissionais burocráticos,

sonolentos em seu ofício, vagamente conformados, que passam

a levar a vida, em vez de vivê-la.

Em meu último encontro com a sobrinha pude ver que

ela está feliz. Faz exatamente o que gosta, leva a sério uma das

mais exigentes profissões do mundo e se realiza a cada dia

com ela. E vejam que atua numa especialidade das mais

penosas: oncologia infantil. Desde seu estágio, envolveu-se

com seus pequenos pacientes, por quem tem grande carinho.

Tenho certeza de que eles encontram nela mais do que o apoio

da profissional competente; vêem-na, certamente, como aquela

irmã mais velha e indispensável nas horas difíceis.

Quando nossa vocação real é atendida, o trabalho não

enfada, não pesa como uma maldição. Cansativo que seja,

sentimos que estamos no ofício que é nosso, que nos ocupamos

com algo que nos diz respeito e que, em larga medida,

nos define como sujeitos. Não é pouco; é quase tudo. É o que

parece dizer o olhar franco, aberto e feliz dessa jovem

enfermeira. Ela não trabalha para atingir algum objetivo, não

trabalha para viver, para ganhar a vida. Trabalhando, ela já

é. E isso não é invejável?

(Valentino Rodrigues)

Atente para as seguintes afirmações: I.O caso da sobrinha do autor é um exemplo da falta desse fecundo momento de interrogação. II.Depreende-se do texto que a negligência quanto à vocação autêntica nasce do fato de que as pessoas passam a levar a vida, em vez de vivê-la. III.No trabalho vocacionado, a preocupação com metas a serem alcançadas dá lugar à plena realização da vivência cotidiana. Em relação ao texto, está correto SOMENTE o que se afirma em