Questão #14986972006

Português

Instruções: As questões de números 1 a 12 referem-se ao texto

seguinte.

As crônicas de Rubem Braga

Décadas atrás, afortunados leitores de jornal podiam

contar com uma coluna em que sobravam talento, reflexão,

observação atenta das cenas da vida, tudo numa linguagem

límpida, impecável, densamente poética e reflexiva. Era uma

crônica de Rubem Braga. Os chamados assuntos menores,

que nem notícia costumam ser, ganhavam na pena do cronista

uma grandeza insuspeitada. Falasse ele de um leiteiro, de um

passarinho, de um pé de milho, de um casal na praia, de uma

empregada doméstica esperando alguém num portão de

subúrbio − tudo de repente se tornava essencial e vivo, mais

importante que a escandalosa manchete do dia. É o que

costumam fazer os grandes artistas: revelam toda a carga de

humanidade oculta que há na matéria cotidiana pela qual

costumamos passar desatentos.

Rubem Braga praticamente só escreveu crônicas, como

profissional. À primeira vista, espanta que seja considerado um

dos grandes escritores brasileiros dedicando-se tão-somente a

um gênero considerado menor: a crônica sempre esteve longe

de ter o prestígio dos romances ou dos contos, da poesia ou do

teatro. Mas o nosso cronista acabou por elevá-la a um posto de

dignidade tal que ninguém se atreverá de chamar seus textos

de páginas circunstanciais. Tanto não o foram que estão todas

recolhidas em livros, driblando o destino comum do papel de

jornal. Recusaram-se a ser um entretenimento passageiro:

resistem a tantas leituras quantas se façam delas, reeditam-se,

são lidas, comentadas, não importando o dia em que foram

escritas ou publicadas.

Conheci Rubem Braga já velho, cansado, algo

impaciente e melancólico, falando laconicamente a estudantes

de faculdade. Parecia desinteressado da opinião alheia,

naquele evento organizado por uma grande empresa, a que

comparecera apenas por força de contrato profissional.

Respondia monossilabicamente às perguntas, com um olhar

distante, às vezes consultando o relógio. Não sabíamos, mas já

estava gravemente doente. Fosse como fosse, a admiração que

os jovens mostravam pelo velho urso pouco lhe dizia, era

evidente que preferiria estar em outro lugar, talvez sozinho,

talvez numa janela, ou na rede do quintal de seu apartamento

(sim, seu apartamento de cobertura tinha um quintal aéreo,

povoado de pássaros e plantas), recolhendo suas últimas

observações, remoendo seus antigos segredos. Era como se

nos dissesse: Não me perguntem mais nada, estou cansado,

tudo o que me importou na vida já escrevi, me deixem em paz,

meninos.

E teria razão. O leitor que percorrer crônicas do velho

Braga saberá que ele não precisaria mesmo dizer nada além do

que já disse e continua dizendo em suas páginas mágicas,

meditadas, incapazes de passar por cima da poesia da vida.

(Manuel Régio Assunção)

Rubem Braga escreveu muitas crônicas, lt;gt;nutriu as crônicas com a matéria do cotidiano, fez as crônicas atingir um patamar que parecia interditado às crônicas, e notabilizouse empregando todo o seu talento nas crônicas. Evitam-se as viciosas repetições e mantém-se a correção do período acima, substituindo-se os elementos sublinhados, respectivamente, por: