Português — pontuação
Texto IIA nuvem como guia Quando eu era criança, morava na Penha. Em minha casa, havia quintal. Deitado na grama, eu via estrelas, cometas, asteróides: via até a ponta das barbas brancas de Deus. Em dia de lua cheia, via até5 seu sorriso, encimando o bigode branco. As estrelas eram tantas que pareciam confetes e lantejoulas, em noite de terça-feira gorda. Brilhavam forte, com brilho que hoje já não se vê: a luz foi soterrada no céu sombrio pela poluição galopante, estufa onde nos esturricaremos todos10 como torresmos, sem remissão, se os países poluentes continuarem sua obra sufocante. NaPraia das Morenas, no fim da minha rua, tropeçando em siris e caranguejos - naquele tempo havia até água-viva na Baía de Guanabara; hoje, nem15 morta! - eu via barcos de pescadores e peixes contorcionistas, mordendo as redes, como borboletas em teias de aranha - que ainda existiam naqueles tempos, aranhas e borboletas. Criança, eu pensava: como seria possível aos20 pescadores velejar tão longe da areia, perder-se da nossa vista, perder-se no mar onde só havia vento em ritmos tonitruantes, onde as ondas eram todas iguais, sem traços distintivos, feitas da mesma água e mesma espuma e, encharcados de tempestades, encontraro25 caminho de volta? Meu pai explicava: os pescadores olhavam as estrelas, guias seguras, honestas, que indicavam o caminho de suas choupanas, na praia. Eu olhava o céu e via que as estrelas se moviam, e me afligia: talvez30 enganassem os pescadores. Meu pai esclarecia: os pescadores haviam aprendido os movimentos estelares, e as estrelas tinham hábitos inabaláveis, confiáveis, eram sérias, seguiam sempre os mesmos caminhos seguros.BOAL, Augusto. (adaptado).
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