Português — coesão e coerência
Atenção: As questões de números 1 a 10 referem-se ao textoseguinte.Caso de injustiçaQuando adolescente, o poeta Carlos Drummond deAndrade foi expulso do colégio onde estudava. A razão alegada:insubordinação mental. O fato: o jovem ganhara uma notamuito alta numa redação de Português, mas o professor, ao lhedevolver o texto avaliado, disse-lhe que ele talvez não amerecesse. O rapaz insistiu, então, para que lhe fosse atribuídauma nota conforme seu merecimento. O caso foi levado aodiretor da escola, que optou pela medida extrema. Confessa opoeta que esse incidente da juventude levou-o a desacreditarpor completo, e em definitivo, da justiça dos homens.Está evidente que a tal da insubordinação mental dorapaz não foi um desrespeito, mas uma reação legítima àrestrição estapafúrdia do professor quanto ao mérito que estemesmo, livremente, já consignara. O mestre agiu com apequenez dos falsos benevolentes, que gostam detransformarem favor pessoal o reconhecimento do mérito alheio.Protestando contra isso, movido por justa indignação, o jovemdiscípulo deu ao mestre uma clara lição de ética: reclamou peloque era o mais justo. Em vez de envergonhar-se, o professorrespondeu com a truculência dos autoritários, que é o reduto dafalta de razão. E acabou expondo o seu aluno à experiênciacorrosiva da injustiça, que gera ceticismo e ressentimento.A insubordinação mental, nesse caso, bem poderia tersido entendida como uma legítima manifestação de amorpróprio,que não pode e não deve subordinar-se àagressividade dos caprichos alheios. Além disso, aquelaexpressão deixa subentendido o mérito que haveria numasubordinação mental, ou seja, na completa rendição de umaconsciência a outra. O que se pode esperar de quem se regepela cartilha da completa subserviência moral e intelectual? Nãofoi contra esta que o jovem se rebelou? Por que aceitaria eledeixar-se premiar por umanota alta a que não fizesse jus?Muitas vezes um fato que parece ser menor ganha umaenorme proporção. Todos já sentimos, nos detalhes de situaçõessupostamente irrelevantes, o peso de uma grande injustiça.A questão do que é ou do que não é justo, longe de sertão-somente um problema dos filósofos ou dos juristas, traduzsenas experiências mais rotineiras. O caso do jovem poetailustra bem esse gosto amargo que fica em nossa boca, cadavez que somos punidos por invocar o princípio ético da justiça.(Saulo de Albuquerque)
Está inteiramente correta a pontuação da frase:
Uma questão respondida. E as próximas?
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