Questão #14736152008

Português — Psicologia hospitalar

Texto IITristeza de CronistaA moça viera da cidade para os lados de Botafogo. No ônibus repleto, dois rapazes de pé conversavam, esua conversa era ouvida por todos os passageiros. (Inconveniente dos hábitos atuais). Eram dois rapazes modernos,bem vestidos, bem nutridos. (Ah! Este excesso de vitaminas e de esportes!). Um não conhecia quase nada dacidade e outro servia-lhe de cicerone. Mostrava-lhe, pois, a avenida e os seus principais edifícios, a Cinelândia, oObelisco, o Monumento dos Pracinhas, o Museu de Arte Moderna, o Aterro, o mar...O outro interessava-se logo pelas minúcias: qual o melhor cinema? Quantos pracinhas estão ali? que sepode ver no museu? Mas os ônibus andam tão depressa e caprichosamente que as perguntas e respostas sedesencontravam. (Que fôlego humano pode competir com o de um ônibus?).Quanto ao Pão de Açúcar, o moço não manifestou grande surpresa: já o conhecia de cartões-postais;apenas exprimiu o seu receio de vir ocarrinho a enguiçar. Mas o outro combateu com energia tal receio, como seele mesmo fosse o engenheiro da empresa ou, pelo menos, agente turístico.Assim chegaram a Botafogo, e a atenção de ambos voltou-se para o Corcovado, porque um dizia: Quandovocê vir o Cristo mudar de posição, e ficar de lado e não de frente, como agora, deve tocar a campainha, porque éo lugar de saltar. O companheiro prestou atenção.Mas, enquanto não saltava, o cicerone explicou ao companheiro: Nesta rua há uma casa muito importante.É a casa de Rui Barbosa. Você já ouviu falar nele? O outro respondeu que sim, porém sem grande convicção.Mais adiante, o outro insistiu: É uma casa formidável. Imagine que tudo lá dentro está conforme eledeixou! O segundo aprovou, balançando a cabeça com muita seriedade e respeito. Mas o primeiro estavaempolgado pelo assunto e tornou a perguntar: Você sabe quem foi Rui Barbosa, não sabe? O segundo atendeuao interesse do amigo: Foi um sambista, não foi? Oprimeiro ficou um pouco sem jeito, principalmente porque unsdois passageiros levantaram a cabeça para aquela conversa. Diminuiu um pouco a voz: Sambista, não. E tentouexplicar. Mas as palavras não lhe ocorriam e ficou por aqui: Foi... foi uma pessoa muito falada. O outro nãorespondeu.E foi assim que o Cristo do Corcovado mudou de posição sem eles perceberem, e saltaram fora do ponto.Ora, a moça disse-me; Você com isso pode fazer uma crônica. Respondi-lhe: A crônica já está feita porsi mesma. É o retrato deste mundo confuso, destas cabeças desajustadas. Poderão elas ser consertadas? Haverámaneira de se pôr ordem nessa confusão? Há crônicas e crônicas mostrando o caos a que fomos lançados.Adianta alguma coisa escrever para os que não querem resolver?A moça ficou triste e suspirou. (Ai, nós todos andamos tristes e suspirando!).Meireles, Cecília. Escolha o seu sonho. São Paulo: Círculo do livro, s/d.

Ocorre a relação lógica de conseqüência na palavra sublinhada em