Questão #14664322008

Português — concordância nominal e verbal

Duas linguagensNa minha juventude, tive um grande amigo que era estudantede Direito. Ele questionava muito sua vocação para osestudos jurídicos, pois também alimentava enorme interessepor literatura, sobretudo pela poesia, e não achava compatíveisa linguagem de um código penal e a freqüentada pelos poetas.Apesar de reconhecer essa diferença, eu o animava, sem muitaconvicção, lembrando-lhe que grandes escritores tinham formaçãojurídica, e esta não lhes travava o talento literário.Outro dia reencontrei-o, depois de muitos anos. É juiz dedireito numa grande comarca, e parece satisfeito com a profissão.Hesitei em lhe perguntar sobre o gosto pela poesia, e ele,parecendo adivinhar, confessou que havia publicado alguns livrosde poemas - inteiramente despretensiosos, frisou. Ficou deme mandar um exemplar do último, que havia lançadorecentemente.Hoje mesmo recebi o livro, trazido em casa por um amigocomum. Os poemas são muito bons;têm uma secura de estiloque favorece a expressão depurada de finos sentimentos.Busquei entrever naqueles versos algum traço bacharelesco,alguma coisa que lembrasse a linguagem processual. Nada.Não resisti e telefonei ao meu amigo, perguntando-lhe comoconseguiu elidir tão completamente sua formação e sua vidaprofissional, freqüentando um gênero literário que costumaimpelir ao registro confessional. Sua resposta:? Meu caro, a objetividade que tenho de ter para julgaros outros comunica-se com a objetividade com que busco tratarminhas paixões. Ser poeta é afinar palavra justas e precisossentimentos. Justeza e justiça podem ser irmãs.E eu que nunca tinha pensado nisso...(Ariovaldo Cerqueira, inédito)

A afirmação feita pelo juiz de que a objetividade para julgar alguém comunica-se com a objetividade poética na expressão das paixões salienta sua convicção de que