Questão #14642482008

Português — Dos crimes contra a fé pública.

VoluntárioO velho gaúcho foi ajudar, no posto mais próximo dohotel em que se hospedara, o serviço de assistência aosdesabrigados pelo temporal. Ninguém lhe dá a idade que tem,ao vê-lo caminhar desempenado, botar colchão na cabeça,carregar dois meninos ao mesmo tempo, inclinar-se até oladrilho, reassumir a postura erecta sem estalo nas juntas. Sóque não se apressa e, quando um mais afobado desanda acorrer pelo pátio ou a gritar ordens, aconselha por baixo dabigodeira branca:? Eh lá, não te apures que é lançante.E se o outro não entende:? Devagar pelas pedras, amigo!Está sempre recomendando calma e jeito; bota a mão noombro do voluntário insofrido e diz-lhe, olhos nos olhos:? Não guasqueies sem precisão nem grites sem ocasião,homem!O outro, surpreso, ia queimar-se, mas o rosto claro eamical do velho o desarma. Ainda assim, pergunta:? Mas por quê?? Porque senão te abombachas no banhado, chê!Como tem prática decampo e prática de cidade, práticade enchente, de seca, de incêndio, de rodeio, de eleição, derepressão a contrabando e prática de guerra (autobiografiaoral), propõe, de saída, a divisão dos serviços em setores bemcaracterizados:? Pois não sabes que tropa grande se corta em mais deum lote pra que vá mais ligeiro?Ajuda mesmo, em vez de atrapalhar, e procura impedirque outros atrapalhem, o que às vezes aumenta um pouco aatrapalhação, mas tudo se resolve com bom humor. Vendo orapazinho imberbe que queria tomar a si o caso de uma famíliainteira, que perdera tudo, afasta-o de leve, explicando:? Isto não é cancha pra cavalo de tiro curto.Nomeia o rapazinho seu ajudante-de-ordens, e daí apouco a família sente que, depois de tudo perder, achara umacoisa nova: proteção e confiança.Anima a uns e outros, não quer ver ninguém tristedemais da conta. Suspende no ar o garotinho que não fala nemchora, porque ficou idiotizado de terror, puxa-lhe o queixo,dálheuma pancadinha no traseiro, e diz-lhe:? Estás que nem carancho em tronqueira, piazito! Tomalá este regalo.O regalo é um reloginho de pulso, de carregação, queele saca do bolso da calça como se fosse mágico - e é capazde tirar outros, se aparecerem mais garotos infelizes.[...](Carlos Drummond de Andrade. Prosa seleta. Rio de Janeiro:Nova Aguilar, vol. único, 2003, p.570-571)

... puxa-lhe o queixo, dá-lhe uma pancadinha no traseiro, e diz-lhe...Considerando-se os pronomes grifados acima, está correto o que se afirma em: