Questão #14565912008

Português — interpretação de textos

Uma nação se forja graças à sua memória. Ninguémmelhor do que os franceses para cultuar a sua História, bemapresentada na Biblioteca François Mitterrand, em Paris, com aexposição sobre os heróis, denominada De Aquiles a Zidane.Curioso o título da mostra, a indicar o surgimento de um novomodelo de herói. Na exposição se percorre uma longa trajetória,que vai dos heróis gregos, como Aquiles, um bravo, corajoso,impiedoso combatente, que preferiu a vida breve gloriosa a umavida longa obscurecida, até as figuras de gibi e televisão, comoSuperman e Homem-Aranha, para finalizar com uma celebridadedo contagiante futebol. Dos pés de Aquiles, seu único pontofraco, aos pés de Zidane, seu ponto forte.Sendo o herói de hoje efêmero, que tem seu rápidomomento de glória registrado pela mídia para ser logoesquecido, teve-se de recorrer, para marcar o herói dos temposatuais, às figuras imaginárias do Superman, do Homem-Aranha,consagradas nas revistase nas telas de cinema ou televisão.Como diz Michela Marzano sobre a morte espetáculo, as fronteirasentre a ficção e realidade são cada vez mais vagas. Osheróis de hoje não são de carne e osso, são super-heróis indestrutíveisde um espetáculo de divertimento, mas que podemconfundir-se com o real, como fez o garoto de Santa Catarinaque, vestido de Homem-Aranha, penetrou nas chamas e retiroua menininha do berço incendiado.Mas a mostra rememora os heróis franceses a seremcultuados e seguidos. Os heróis são símbolos nacionais oureligiosos cujos prodígios se caracterizam pela bravura, pelatemeridade, pela renúncia, pelo idealismo. Põem acima dopróprio instinto de conservação a busca do bem coletivo. Oherói ressalta-se por sua vontade de vencer, pela força docaráter, pela grandeza de alma, pela elevada virtude, que o fazenfrentar sobranceiramente a morte. [...]Lembrei o exemplo de mártires que, sem desprezo pelamorte, a enfrentaram comestoicismo, alimentados por suascrenças em luta corajosa para a eliminação da injustiça e atransformação da sociedade em benefício de todos. Não foramestes homens combatentes de grandes feitos militares, portadoresde estratagemas ou forças invencíveis. Foram pessoascomuns, que tiveram destino diverso das demais por aceitaremenfrentar os perigos em nome de uma causa, com a virtude darenúncia aos próprios interesses. São heróis, não super-heróisou celebridades, como os heróis de hoje.Nós, brasileiros, também temos exemplos de heróis decarne e osso, em nossa História, que morreram na luta por suascrenças. Lembro três: Zumbi, Frei Caneca e Marçal de SouzaTupã-Y. Malgrado existam estes exemplos, dentre outros,assusta a resposta colhida em pesquisa feita, por internet, entre60 mil brasileiros, a quem se indagou qual a figura mais importantede nossa História. A resposta majoritária foi, num leque deopções, o próprio povo brasileiro. Tal indica quedeixamos deter modelos, valores a serem perseguidos. Perdeu-se amemória.(Adaptado de Miguel Reale Júnior. O Estado de S. Paulo, A2, 1de dezembro de 2007)

Identifica-se relação de causa (1) e conseqüência (2), respectivamente, entre as afirmativas transcritas em: