Questão #14439562009

Português — interpretação de textos

Leia o texto abaixo e responda às questõespropostas.1 Entender a saúde como grau zero de malestarpermitiu uma grande invenção do século XX,que foi a previdência social. Se a saúde é a nãodoença,então sabemos exatamente do que cadaqual necessita para curar-se. A sociedade, assim,se responsabiliza por tais tratamentos de saúde.Isso é moral e justificável. Aliás, é quase consensoque uma das maiores falhas dos Estados Unidos énão terem um sistema de saúde como o europeu eo canadense.2 Contudo, com os avanços da medicina e anova idéia de saúde surgem problemas. Antes demais nada, até onde vai minha responsabilidadepela saúde dos outros? Se alguém adoece ou sefere por decisão própria, deve a sociedade arcarcom suas despesas? Não penso no caso datentativa de suicídio, porque esta pode decorrer deum sofrimento psíquico tão intenso que justifica asociedade tratar não só os danos físicos, mas acausa íntima deles. No entanto,no caso de quemfuma ou bebe, deve a sociedade custear asdoenças que ele terá a mais do que o não-fumanteou o não-alcoólico? Ou deveriam essas pessoas,alertadas há anos dos custos que despejam sobreseus concidadãos, arcar com eles ou com umpagamento suplementar de seguro-saúde? Épossível, hoje, estabelecer melhor que no passadoo grau de responsabilidade de cada pessoa nasmazelas sociais. Vemos isso nos seguros de carro:os rapazes de 18 a 24 anos são os maiorescausadores de acidentes, portanto quem está nessafaixa paga um prêmio maior. Todavia, se ao fim deum ano ou dois ele mostrar que não gerou custospara a seguradora, provavelmente começará aganhar bônus. Esse modelo possivelmente seampliará para a saúde.3 O segundo problema está ligado à expansãoda saúde para um a mais. Uma coisa é curar ousarar, outra é dar vantagens - como o que sechama wellness - que as pessoas antes nãotinham ou que não estão na previsão usualdenossa vida e de sua qualidade. Aqui, para além dovalor altamente moral da saúde como não-doença,entram elementos que podem ser da ordem davaidade, ou do gosto pelo próprio corpo, ou de certafelicidade. É difícil separar o que é vaidade, o que éfelicidade, e talvez se esmerar em distingui-losindique apenas uma atitude moralista no piorsentido do termo. Mas cada vez mais pessoas hãode querer não apenas realizar cirurgias plásticas,como também ampliar seu tempo de vidasexualmente ativa, sua capacidade física e outrasqualidades que, longe de nos reconduzirem à médiazero do histórico humano, vão nos levar - permitama citação de Toy Story - para o infinito e além.Ora, se a medicina da cura tem custos diferentesconforme o perfil de saúde e doença dos pacientes,a medicina do mais tem custos diferentesconforme o que o indivíduo almeja. Naquele caso, ocusto depende de onde se parte; neste, de aondese quer chegar. Podemosmodelar nosso corpo enossa vida, mais que no passado. E quem paga porisso?4 Aqui, a ideia de um custeio social - que naverdade é um rateio, porque como contribuintespagamos aquilo que vamos desfrutar comocidadãos - fica mais difícil. Uma coisa é ratearmoso custo de operações de câncer, de tratamento dedoenças caras. Outra é ratearmos o sonho de corpode cada um. O rateio funciona quando o desejo sereduz ao de zerar a dor. Esse desejo baixo, mínimo(só quero parar de sentir dor) admite que,moralmente, todos paguemos por ele. Entretanto,alguém de nós aceitaria ratear uma operação paraalguém que quer ampliar o busto, aumentar o pênisou simplesmente ter uma condição física superior àmédia? Não creio.5 O melhor exemplo é o do Viagra. Éperfeitamente legítimo um Estado de bem-estarsocial, como os europeus, fornecê-lo a idosos quesentem dificuldade em ter ou manter a ereção. Masquantos comprimidos azuis por semana? Por queum e nãodois, três, sete? Não há mais medida,porque nosso metro moral e previdenciário era ozero, a não-dor. O orgasmo não se encaixa nessemodelo. Por melhor que uma relação sexual sejapara a saúde das pessoas, não sabemos qualnúmero seria o adequado.6 O caso do sexo tem um elemento irônico,ademais. Quase todos sabem como é forte, nodesejo sexual, a transgressão. Daí a atração dofruto proibido. E como fica se o Estado me forneceos meios de ter relações sexuais? Não seburocratiza o imaginário em torno do sexo? O sr. járecebeu seus comprimidos do mês. O próximo, porfavor! Talvez o Viagra só funcione de verdade sefor comprado ou, como dizem os baianos sobre asfitas do Bonfim, se você o ganhar de alguém - ouroubarImagem da questão

Leiam-se os enunciados seguintes: I Aliás, é quase consenso que uma das maiores falhas dos Estados Unidos é não terem um sistema de saúde como o europeu e o canadense. (1º parágrafo) II Não penso no caso da tentativa de suicídio, porque esta pode decorrer de um sofrimento psíquico tão intenso que justifica a sociedade tratar não só os danos físicos, mas a causa íntima deles. (2º parágrafo) III Vemos isso nos seguros de carro: os rapazes de 18 a 24 anos são os maiores causadores de acidentes, portanto quem está nessa faixa paga um prêmio maior. (2º parágrafo)IV Uma coisa é curar ou sarar, outra é dar vantagens - como o que se chama wellness - que as pessoas antes não tinham ou que não estão na previsão usual de nossa vida e de sua qualidade. (3º parágrafo) Para justificar o que disse na frase imediatamente anterior, o autor recorre a apenas: