Questão #14326162009

Português — pronomes relativos

CronistasProfissão das mais invejáveis, a de cronista. Regularmente,deve escrever e enviar um pequeno texto para um jornal,tratando de qualquer coisa com alguma graça, ou commelancolia, ou com desbragado humor, ou mesmo com solenepoesia. Se não lhe ocorre qualquer assunto, sempre pode discorrersobre a falta de assunto. E se uma grande ideia de repenteo assalta, ótimo, ela bem poderá render uma sequênciade três ou quatro crônicas. A imaginação entra em greve? Puxauma revista ou jornal e faz uma disfarçada paráfrase da matériaque um repórter levou tempo para apurar. Ou que tal vingar-seda amada que o abandonou, colocando-a como protagonista deuma cena tão imaginária como ridícula?Não se ganha muito dinheiro, em geral, mas sempre dápara pagar as pequenas dignidades. E há também quem alimentea esperança de que o exercício da crônica leve ao do conto,e este ao romance, de tal forma que, de repente, passe a ser reconhecidocomo umescritor de verdade. Esta é a ambição deum cronista não-convicto: começar a ser considerado umEscritor.Mas essa condição de Escritor, vista sob outraperspectiva, pode não ser tão invejável como a de um cronista:aquele tem que tratar, em centenas de páginas, dos grandesdramas humanos, das aflições intensas de um ou mais indivíduos,das paixões profundas, dos amplos painéis sociais etc.E aí ele não consegue mais ver sentido em escrever trintalinhas sobre, por exemplo, o prazer que é abrir numa manhã ajanela e ver passar na calçada a beleza distraída de uma moçaapressada, que vira a esquina e desaparece para sempre.Talvez para não perder a oportunidade de registrar o encantodo efêmero, talvez por preguiça, há cronistas, como RubemBraga, que jamais deixam de ser tão-somente cronistas. Tãosomente,aliás, não se aplica, em absoluto, a esse admirávelEscritor de crônicas. Quem as conhece não recusará ao velhoBraga esse E maiúsculo, que o identificacomo um dos maioresautores da nossa literatura.(Eleutério Damásio, cronista inédito)

Não se ganha muito dinheiro, / mas sempre dá para pagar as pequenas dignidades. Preserva-se a relação de sentido entre os segmentos destacados na frase acima em: