Questão #13940292010

Português — morfologia

Assédio eletrônicoQuem já se habituou ao desgosto de receber textos nãosolicitados de cem páginas aguardando sua leitura? Ou quemnão se irrita por ser destinatário de mensagens automáticas quenem lhe dizem respeito? E, mesmo sem aludir a entes maissinistros como os hackers e os vírus, como aturar os abusos dapropaganda que vem pelo computador, sob pretexto daliberdade de acesso à informação?Entre as vantagens do correio eletrônico - indiscutíveis,a pergunta que anda percorrendo todas as bocas visa aapurar se a propagação do e-mail veio ressuscitar a carta. Aesta altura, o e-mail lembra mais o deus dos começos, JanusBifronte, a quem era consagrado o mês de janeiro. No templode Roma ostentava duas faces, uma voltada para a frente eoutra para trás. A divindade presidia simultaneamente à morte eao ressurgimento do ciclo anual, postada na posiçãoprivilegiada de olhar nas duas direções, para o passado e parao futuro. Analogamente,o e-mail tanto pode estar completandoa obsolescência da carta como pode dar-lhe alento novo.Sem dúvida, o golpe certeiro na velha prática dacorrespondência, de quem algumas pessoas, como eu, andamcom saudades, não foi desferido pelo e-mail nem pelo fax. Oassassino foi o telefone, cuja difusão, no começo do século XX,quase exterminou a carta, provocando imediatamente enormediminuição em sua frequência. A falta foi percebida e muitagente, à época, lamentou o fato e o registrou por escrito.Seria conveniente pensar qual é a lacuna que seinterpõe entre a carta e o e-mail. Podem-se relevar três pontosem que a diferença é mais patente. O primeiro é o suporte, quepassou do papel para o impulso eletrônico. O segundo é atemporalidade: nada poderia estar mais distante do e-mail doque a concepção de tempo implicada na escritura e envio deuma carta. Costumava-se começar por um rascunho; passavasea limpo, em letra caprichada, e escolhia-se oenvelopeelegante - tudo para enfrentar dias, às vezes semanas, decorreio. O terceiro aspecto a ponderar é a tremenda invasão daprivacidade que a Internet propicia. Na pretensa cumplicidadetrazida pelo correio eletrônico, as pessoas dirigem-se a quemnão conhecem a propósito de assuntos sem interesse do infelizdestinatário.(Walnice Nogueira Galvão, O tapete afegão)

(...) as pessoas dirigem mensagens a quem não conhecem, a propósito de assuntos que não dizem respeito ao infeliz destinatário. Dando nova redação à frase acima, e iniciando-a com O infeliz destinatário recebe mensagens, a complementação que se mantém clara, correta e coerente com o sentido original é