Questão #13935022010

Português — interpretação de textos

A arte de não fazer nadaDizem-me que mais da metade da humanidade sededica à prática dessa arte; mas eu, que apenas recente eprovisoriamente a estou experimentando, discordo um poucodessa afirmativa. Não existe tal quantidade de gentecompletamente inativa: o que acontece é estar essa genteinteressada em atividades exclusivamente pessoais, semconsequências úteis para o resto do mundo.Aqui me encontro num excelente posto de observação: olago, em frente à janela, está sendo percorrido pelos botesvermelhos em que mesmo a pessoa que vai remando parecenão estar fazendo nada. Mas o que verdadeiramente estáacontecendo, nós, espectadores, não sabemos: cada um podeestar vivendo o seu drama ou o seu romance, o que já é fazeralguma coisa, embora tais vivências em nada nos afetem.E não posso dizer que não estejam fazendo nadaaqueles que passam a cavalo, subindo e descendo ladeiras,atentos ao trote ou ao galope do animal.Háhomens longamente parados a olhar os patos naágua. Esses, dir-se-ia que não fazem mesmo absolutamentenada: chapeuzinho de palha, cigarro na boca, ali se deixamficar, como sem passado nem futuro, unicamente reduzidosàquela contemplação. Mas quem sabe a lição que estãorecebendo dos patos, desse viver anfíbio, desse destino denavegar com remos próprios, dessa obediência de seguiremtodos juntos, enfileirados, para a noite que conhecem, nopequeno bosque arredondado? Pode ser um grande trabalhointerior, o desses homens simples, aparentemente desocupados,à beira de um lago tranquilo. De muitas experiênciascontemplativas se constrói a sabedoria, como a poesia. E nãosabemos ? nem eles mesmos sabem ? se este homem não vaiaplicar um dia o que neste momento aprende, calado e quieto,como se não estivesse fazendo nada, absolutamente nada.(Cecília Meireles, O que se diz e o que se entende)

A autora discorda da afirmação de que boa parte da humanidade pratica a arte de não fazer nada porque julga que