Questão #13919822010

Português — calc

A rotina e a quimera (excerto)Sempre se falou mal de funcionários, inclusive dos quepassam a hora do expediente escrevinhando literatura. Não seise esse tipo de burocrata-escritor ainda existe. A racionalizaçãodo serviço público, ou o esforço para essa racionalização, trouxemodificações sensíveis ao ambiente de nossas repartições, eé de crer que as vocações literárias manifestadas à sombra deprocessos se hajam ressentido desses novos métodos detrabalho.E por que se maldizia tanto o literato-funcionário? Porquedesperdiçava os minutos de seu dia, reservados aos interessesda Nação, no trato de quimeras pessoais. A Nação pagava-lhe para estudar papéis obscuros e emaranhados, ordenarcasos difíceis, promover medidas úteis, ouvir com benignidadeas partes. Em vez disso, nosso poeta afinava a lira, nossoromancista convocava suas personagens, e toca a povoar opapel da repartição com palavras. Figuras e abstrações que emnada adiantamà sorte do público. É bem verdade que essepúblico, logo em seguida, ia consolar-se de suas penas na trovado poeta ou no mundo imaginado pelo ficcionista.O certo é que um e outro são inseparáveis, ou antes, ofuncionário determina o escritor. O emprego do Estado concedecom que viver, de ordinário sem folga, e essa é condição idealpara bom número de espíritos: certa mediania que elimina oscuidados imediatos, porém não abre perspectiva de ócio absoluto.O indivíduo tem apenas a calma necessária para refletir namediocridade de uma vida que não conhece a fome nem ofausto; sente o peso dos regulamentos, que lhe compete observarou fazer observar; o papel barra-lhe a vista dos objetosnaturais, como uma cortina parda. É então que intervém aimaginação criadora, para fazer desse papel precisamente oveículo de fuga, sorte de tapete mágico, em que o funcionárioembarca, arrebatando consigo a doce ou amarga invenção, queirá maravilhar outros indivíduos,igualmente prisioneiros deoutras rotinas, por este vasto mundo de obrigações não escolhidas.(Carlos Drummond de Andrade, Passeios na ilha)

Atente para as seguintes afirmações:I. No 1º parágrafo, o autor faz crer que as rotinas das repartições públicas influíram de algum modo nas vocações literárias dos funcionários.II. No 2º parágrafo, o cronista considera a contradição que existe entre maldizer o literato-funcionário e consolar-se com o que ele criou como escritor.III. No 3º parágrafo, o autor afirma que a condição da mediania, vivida pelo funcionário público, pode ser a ideal para estimulá-lo como criador, favorecendo sua imaginação. Em relação ao texto, está correto o que se afirma em