Questão #13782152010

Português — interpretação de textos

Pensando nas histórias popularesSe examinarmos as fábulas populares, verificaremos queelas representam dois tipos de transformação social, semprecom final feliz. Num primeiro tipo, existe um príncipe que, por algumacircunstância, se vê reduzido a guardador de porcos oualguma outra condição miserável, para depois reconquistar suacondição real. Num segundo caso, existe um jovem pastor quenão possuiu nada desde o nascimento e que, por virtude própriaou graça do destino, consegue se casar com a princesa etornar-se rei.Os mesmos esquemas valem para as protagonistasfemininas: a donzela nobre é vítima de uma madrasta (Brancade Neve) ou de irmãs invejosas (Cinderela), até que um príncipese apaixone por ela e a conduza ao vértice da escala social. Ouentão uma camponesa pobre supera todas as desvantagens daorigem e realiza núpcias principescas.Poderíamos pensar que as fábulas do segundo tipo sãoas que exprimem mais diretamente o desejopopular de umareviravolta dos papéis sociais e dos destinos individuais, ao passoque as do primeiro tipo deixam aparecer tal desejo de formamais atenuada, como restauração de uma hipotética ordemprecedente. Mas, pensando bem, os destinos extraordinários dopastorzinho ou da camponesa representam apenas uma ilusãomiraculosa e consoladora, ao passo que os infortúnios do príncipeou da jovem nobre associam a imagem da pobreza com aideia de um direito subtraído, de uma justiça a ser reivindicada,isto é, estabelecem no plano da fantasia um ponto queserá fundamental para toda tomada de consciência da épocamoderna, da Revolução Francesa em diante.No inconsciente coletivo, o príncipe disfarçado de pobreé a prova de que cada pobre é, na realidade, um príncipe quesofreu uma usurpação de poder e por isso deve reconquistarseu reino. Quando cavaleiros caídos em desgraça triunfaremsobre seus inimigos, hão de restaurar uma sociedade maisjusta, na qualserá reconhecida sua verdadeira identidade.(Adaptado de Ítalo Calvino, Por que ler os clássicos)

Está clara e correta a redação deste livre comentário sobre o texto: