Questão #12479362013

Português

Tecnologia

Para começar, ele nos olha na cara. Não é como a máquina de

escrever, que a gente olha de cima, com superioridade. Com ele é

olho no olho ou tela no olho. Ele nos desafia. Parece estar

dizendo: vamos lá, seu desprezível pré?eletrônico, mostre o que

você sabe fazer. A máquina de escrever faz tudo que você manda,

mesmo que seja a tapa. Com o computador é diferente. Você faz

tudo que ele manda. Ou precisa fazer tudo ao modo dele, senão

ele não aceita. Simplesmente ignora você. Mas se apenas

ignorasse ainda seria suportável. Ele responde. Repreende.

Corrige. Uma tela vazia, muda, nenhuma reação aos nossos

comandos digitais, tudo bem. Quer dizer, você se sente como

aquele cara que cantou a secretária eletrônica. É um vexame

privado. Mas quando você o manda fazer alguma coisa, mas

manda errado, ele diz Errado. Não diz Burro, mas está

implícito. É pior, muito pior. Às vezes, quando a gente erra, ele

faz bip. Assim, para todo mundo ouvir. Comecei a usar o

computador na redação do jornal e volta e meia errava. E lá vinha

ele: Bip! Olha aqui, pessoal: ele errou. O burro errou!

Outra coisa: ele é mais inteligente que você. Sabe muito mais

coisa e não tem nenhum pudor em dizer que sabe. Esse negócio

de que qualquer máquina só é tão inteligente quanto quem a usa

não vale com ele. Está subentendido, nas suas relações com o

computador, que você jamais aproveitará metade das coisas que

ele tem para oferecer. Que ele só desenvolverá todo o seu

potencial quando outro igual a ele o estiver programando. A

máquina de escrever podia ter recursos que você nunca usaria,

mas não tinha a mesma empáfia, o mesmo ar de quem só

aguentava os humanos por falta de coisa melhor, no momento. E

a máquina, mesmo nos seus instantes de maior impaciência

conosco, jamais faria bip em público.

Dito isto, é preciso dizer também que quem provou pela

primeira vez suas letrinhas dificilmente voltará à máquina de

escrever sem a sensação de que está desembarcando de uma

Mercedes e voltando à carroça. Está certo, jamais teremos com

ele a mesma confortável cumplicidade que tínhamos com a velha

máquina. É outro tipo de relacionamento, mais formal e exigente.

Mas é fascinante. Agora compreendo o entusiasmo de gente

como Millôr Fernandes e Fernando Sabino, que dividem a sua

vida profissional em antes dele e depois dele. Sinto falta do papel

e da fiel Bic, sempre pronta a inserir entre uma linha e outra a

palavra que faltou na hora, e que nele foi substituída por um

botão, que, além de mais rápido, jamais nos sujará os dedos, mas

acho que estou sucumbindo. Sei que nunca seremos íntimos,

mesmo porque ele não ia querer se rebaixar a ser meu amigo,

mas retiro tudo o que pensei sobre ele. Claro que você pode

concluir que eu só estou querendo agradá?lo, precavidamente,

mas juro que é sincero.

Quando saí da redação do jornal depois de usar o

computador pela primeira vez, cheguei em casa e bati na minha

máquina. Sabendo que ela aguentaria sem reclamar, como

sempre, a pobrezinha.

(VERÍSSIMO, Luis Fernando. O Globo)

Assinale a alternativa em que os dois termos sublinhados possuem o mesmo valor semântico e gramatical.