Concursos públicos
Atenção: As questões de números 1 a 10 referem-se ao texto seguinte.A lua da língua Existe uma língua para ser usada de dia, debaixo da luz forte do sentido. Língua suada, ensopada de precisão. Que nós fabricamos especialmente para levar ao escritório, e usar na feira ou ao telefone, e jogar fora no bar, sabendo o estoque longe de se acabar. Língua clara e chã, ocupada com as obrigações do expediente, onde trabalha sob a pressão exata e dicionária, cumprimentando pessoas, conferindo o troco, desfazendo enganos, sendo atenciosamente sem mais para o momento. É a língua que Cristina usou para explicar quem quebrou o cabo da escova, ou a língua das aeromoças em seus avisos mecanicamente fundamentais. Mas no entardecer da linguagem, por volta das quatro e meia em nossa alma, começa a surgir um veio leve de angústia. As coisas puxam uma longa sombra na memória, e a própria palavra tarde fica mais triste e morna, contrastando com o azul fresco e branco da palavra manhã. À tarde, a luz da língua migalha. E, por ser já meio escuro, o mundo perde a nitidez. Calar, a tarde não se cala, mas diz menos do que veio a dizer. É a que frequenta os cartões de namoro, as confissões, as brigas e os gritos, ou a atenção desajeitada das palavras num velório, ou nos sussurros namorados ao pé dos muros dos subúrbios. E tem a língua que em si mesma anoitece, quando o escuro espatifa o sentido. O sol, esfacelado, vira pó. E a linguagem se perde dos trilhos de por onde ir. Tateia, titubeia, tropeça, esbarra em regras, arrasta a mobília das normas. À noite, sonha a nossa língua. No céu da boca as palavras guardam um resíduo de pensamento, e têm a densidade vazia das ideias vagas, condensando-se como nuvens de um céu sem luz. No calor tempestuoso dessas noites de Manuel Bandeira, é possível a bailarina ser feita de borracha e pássaro. Enquanto o poeta Murilo Mendes solta os pianos na planície deserta, tudo é dito distante dos ruídos do dia. Tudo é possível nessa escuridão criativa, existe o verso, existe a canção. Mais tarde, finda a noite, quando abrimos a boca, a língua amanhece, e de novo a levamos pelos corredores e pelas repartições, pelas galerias e escritórios, valendo-nos dela para o recado simples, a ordem necessária, o atendimento útil. Enquanto não chega a tarde, enquanto não anoitece. (Adaptado de André Laurentino, Lições de gramática para quem gosta de literatura)
Está plenamente adequada a correlação entre os tempos e modos verbais na frase:
Uma questão respondida. E as próximas?
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