Questão #12369332013

Português — Reações quimicas

TELEFONE, UM INIMIGO NECESSÁRIO

Anna Veronica Mautner

Na vida nossa de cada dia, muitos tornam o número de telefone acessível, nem sempre com

disposição para atender as exigências que disso decorrem. Existe aí uma responsabilidade em relação

ao outro. Se eu dou meu número para alguém, estou anunciando que sou acessível.

No tempo em que existia lista telefônica, isso poderia ser discutível, pois os números ficavam

públicos de certa forma, por lei. Mas, hoje, meu número de celular não está em lista oficial nenhuma, só

é acessível se eu der. A partir daí, torno-me responsável por atendê-lo. O processo funciona em mão

dupla. Quando ligo para alguém, imagino que vá me atender - senão, por que teria me dado seu número?

A relação com a telefonia é uma escolha pessoal. Há quem ama falar, há quem é lacônico. Seja

como for, tornar-se acessível significa perder graus de liberdade e, ao mesmo tempo, ganhar em acessibilidade.

O telefone me torna pública, mas também pode preservar minha privacidade. Para me garantir e

me defender, posso usar a secretária eletrônica ou o bina, aliás, inventado e patenteado por um brasileiro.

Tudo isso é muito recente. Há cinquenta anos, o telefone era uma raridade reservada para pessoas

da classe A. A linha era comprada a preço de ouro. Muitas lojas não tinham mais do que um aparelho

- muitas vezes com cadeado; outras, com cadeado só das 13h às 15h, quando ilegalmente recebiam

o resultado do jogo do bicho - não disponível para fregueses.

E, então, um dia, privatizaram a companhia telefônica, e a cidade foi inundada por telefones. Logo

depois chegaram os celulares, que invadiram definitivamente nossa vida.

Tudo isso transformou as relações interpessoais de maneira avassaladora. Não atender o celular

pode ser visto quase como um estelionato. Você está privando o outro do acesso a você - que você

prometeu quando deu o número.

O celular foi uma revolução tão grande quanto a difusão do telefone fixo. Se ligo para o fixo de

alguém que não me atende, só sei que a pessoa não está lá. Mas, com o celular, temos que aprender a

mentir melhor. Vamos desenvolvendo jeitinhos. Se fulano não me atende, ligo de um número que ele

não conhece e descubro se não está lá ou se não quer me atender. Inventamos o bina e depois inventamos

jeitinhos para driblá-lo.

A barreira da invisibilidade ainda não foi vencida. Se é meu amigo ou meu inimigo, não sou capaz

de distinguir antes de atender e ouvir a voz. Só depois de atender, o enigma se desfaz.

Uma educação para o uso do telefone se faz cada dia mais necessária.

Folha de São Paulo, 05 fev.2013

VOCABULÁRIO

Lacônico: breve, conciso

Com base numa leitura global do texto, é possível fazer as seguintes afirmações, EXCETO: