Questão #12151112013

Português

Atenção: Para responder às questões de números 1 a 8 con­sidere o texto abaixo. Memórias de um avestruz literário Modéstia à parte, fui um menino bem esquisitinho. De­pois, há quem diga, piorei. Não é verdade. Não daria conta de superar em bizarria - em chatice, vá lá - o frangote que fui na puberdade. O turbilhão de hormônios não explica tudo. Não me lembro de ter conhecido um ser que desfiasse o meu vocabu­lário de então. Talvez o Antônio Houaiss. Não era por acaso que lá no bairro volta e meia alguém me interpelava: - Ei, irmão do Rodrigo, vem falar difícil pra gente! Não cheguei a topar provocações, mas certa vez deixei de queixo caído um tio que veio xeretar o que havia no meu pra­to. - O que temos aí? - Lipídios, glicídios e protídeos. Foi o que bastou para ganhar do tio Samuel o apelido, infelizmente efêmero, de Zé Lipídio. Ouvia entoar a ave galiforme da família dos fasianídeos - ou, se você prefere, ouvia o galo cantar - e tratava logo de uti­lizar o vocábulo recém-aprendido, sem o cuidado de saber o que estava dizendo. Arranquei gargalhadas de meu pai com um diabo aquático” em vez de diabo a quatro”. Escaldado, tratei de me tornar freguês do dicionário, que até então, como os ou­tros garotos, folheava apenas para garimpar palavrões, com es­pecial atenção aos que designassem acidentes geográficos da anatomia humana. Ao contrário dos companheiros, porém, mantive o hábito mesmo depois que pudemos encarar ao vivo o que conhe­cíamos apenas do dicionário. Só que agora os palavrões, diga­mos, eram outros: na minha insuportável chatice adolescente, o que eu buscava eram palavras estranhas - abstrusas, diria eu na época - que, jogadas na roda como granada verbal, tives­sem o poder de silenciar a audiência ignara. Meu amigo Jaime e eu chegamos a inventar umas tantas, nenhuma delas mais im­pactante que cripteriótico”, cujo significado, se é que tinha al­gum, variava conforme a circunstância em que era disparada. Devo ao Laudelino uma coleção de excentricidades vocabu­lares que tive o bom senso de jamais utilizar. Mas ainda sei o que é almadraque. Não, não vou traduzir. Vá catar no dicioná­rio, seu alóbrogo. (Humberto Werneck. Esse inferno vai acabar. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2011, pp. 123/124)

Atente para as seguintes afirmações: I. No primeiro parágrafo, a afirmação o turbilhão de hormônios não explica tudo leva à dedução de que a entrada na puberdade nada tinha a ver com a obsessão do jovem pelas palavras difíceis. II. Por vezes, o fato de usar um vocabulário nem sem­pre bem apreendido custava ao autor, quando jo­vem, algum constrangimento - razão pela qual se aplicou na consulta a dicionários. III. Quando adolescente, o autor tirava proveito de seu vasto vocabulário para impressionar os amigos, empregando palavras obscuras toda vez que se re­feria às partes recônditas da anatomia humana. Em relação ao texto, está correto APENAS o que se afirma em