Questão #12117342013

Português

Atenção: Para responder às questões de números 1 a 8,

considere o texto abaixo.

Te embalarei com uma canção sentida.”

Senta-te aqui ao meu lado, amiga, e te contarei uma

história. Faz tempo que não te conto uma história na beira deste

cais. A noite está cheia de estrelas, são homens valentes que

morreram. Senta-te aqui, dá-me tua mão, vou te contar a história

de um homem valente. Vês aquela estrela lá longe, mais

além do navio fundeado, mais além do forte velho, da sombra

das ilhas? Deve ser ele iluminando o céu da Bahia. [...]

Já viste da beira do cais o vento noroeste se despenhar

sobre a cidade e o mar, levar embarcações, desatracar navios,

mudar o rumo de transatlânticos, transformar a cor das águas?

É rápido, inquietante, belo, quase irreal. Dura um instante na

medida do tempo. Mas, mesmo depois que o noroeste passa e

volta a calmaria, fica a sua lembrança e é impossível esquecê-lo

porque tudo mudou na face das coisas: é outra a fisionomia do

cais e o ar que se respira é mais puro. Assim, negra, foi Castro

Alves. Tinha a força do vento noroeste, o seu ímpeto, a sua

violência. Tinha a sua beleza também. E deixou o ar mais puro,

a sua lembrança imortal.

Tinha a precocidade desses moleques de rua a quem

acaricias a cabeça e dos quais te contei a história. Começou

muito moço e muito moço terminou. Foi o mais belo espetáculo

de juventude e de gênio que os céus da América presenciaram.

No tempo que andou nestas e noutras ruas, disse tantas

e tão belas coisas, amiga, que sua voz ficou soando para

sempre e é cada vez mais alta e cada vez mais a voz de

centenas, de milhares, de milhões de pessoas. É a sua voz,

negra, é a voz do cais inteiro e da cidade lá atrás também.

Falou por todos nós como nenhum de nós falaria. É ainda hoje

o maior e o mais moço de todos nós.

No teatro grande lá de cima ouviste certa vez uma

numerosa orquestra. Lembras-te da hora em que os músicos se

juntaram todos num esforço supremo e produziram com os seus

instrumentos e com sua virtuosidade uma nota mais alta que

todas, que todas mais bela, nota que ficou soando na sala

mesmo após a saída dos espectadores? Pois assim foi Castro

Alves. Há momentos no mundo em que todas as forças de uma

nação se conjugam e, como uma nota mais alta que todas,

aparece, tranquilo e terrível, demoniacamente belo, justo e verdadeiro,

um gênio. Nasce dos desejos do povo, das necessidades

do povo. Nunca mais morre, imortal como o povo.

Este, cuja história vou te contar, foi amado e amou muitas

mulheres. Vieram brancas, judias e mestiças, tímidas e afoitas,

para os seus braços e para o seu leito. Para uma, no

entanto, guardou ele as melhores palavras, as mais doces, as

mais ternas, as mais belas. Essa noiva tem um nome lindo,

negra: liberdade.

Vê no céu, ele brilha, é a mais poderosa das estrelas.

Mas o encontrarás também nas ruas de qualquer cidade, no

quarto de qualquer casa. Seja onde for que haja jovens, corações

pulsando pela humanidade, em qualquer desses corações

encontrarás Castro Alves.

Dá-me agora tua mão direita, ouve o ABC do poeta.

Obs.: Ortografia atualizada segundo as normas vigentes.

(Jorge Amado. ABC de Castro Alves; 14. ed. São Paulo:

Martins, 1968. p. 15-17)

Ambos os verbos flexionados nos mesmos tempo, modo e pessoa estão grifados em: