Questão #11364122015

Português

Leia o texto I para responder às questões de 1 a 6.

Como diz o outro, preconceito é o diabo. Tanto mais

quando as sociedades humanas até hoje não foram capazes de

se estruturar nem de se organizar sem ele, isto é, sem alguma

forma de negar o próximo. Daí a necessidade de combater o

preconceito a cada instante e daí a sua persistência na História,

sob formas sucessivas. Vai um, vem outro, muita gente vive

dele e para ele, enquanto poucos lutam contra. Na pior hipótese

admissível, ele deve ser pelo menos recalcado, disfarçado,

porque disfarçando a pessoa acaba por atenuar o seu impacto e

não deixa que ele se torne impedimento de relações mais ou

menos normais. Por isso costumamos esperar e até exigir que

os educadores, os chefes, os líderes, as pessoas que

expressam grupos ou são investidas de alguma representação

coletiva não manifestem preconceito, para poderem executar

bem sua tarefa. Se os têm, que os escondam e não atuem em

função deles.

Eis por que foi mesmo lamentável o pronunciamento do

general Coelho Neto, para quem o cardeal Arns é mau

brasileiro, e talvez nem seja brasileiro, por ser contrário à

entrada do Brasil na indústria armamentista. Pensando no

motivo que teria levado o general a simular dúvida sobre a

nacionalidade óbvia de um eminente patrício seu, me ocorre

que ele poderia estar exprimindo uma das formas mais arcaicas

de preconceito que há no Brasil: a noção que o descendente de

estrangeiros, portador de sobrenome não-português, é menos

brasileiro. Menos brasileiro em relação a quem?

Quando eu era menino, há meio século e mais, ainda

florescia este sentimento torto, partilhado automaticamente,

quase sem malícia, nem prejuízo das relações do dia a dia, pela

maior parte dos descendentes de famílias que eram velhas por

aqui. Mas a coisa podia engrossar em certas circunstâncias,

porque, como eles se achavam mais brasileiros, achavam-se

também mais donos do país, e quando o estrangeiro ou seu

filho faziam qualquer coisa que desagradava — do tipo ganhar

dinheiro demais, comprar terras do pessoal antigo, brilhar ou

mostrar mais capacidade — havia quem se sentisse vagamente

espoliado de um direito virtual. E que podia chegar a ver no

caso um desaforo tácito, atentatório, à integridade e ao destino

da Nação...

CANDIDO, A. Preconceito arcaico. (Folha de S.Paulo, 7/4/1982). Texto

com adaptações. In: Textos de Intervenção/ Antonio Candido; seleção,

apresentação e notas de Vinicius Dantas. São Paulo: Duas Cidades;

Ed.34, 2002.

Considerando a leitura do terceiro parágrafo do texto, bem como as orientações da prescrição gramatical no que se refere a textos escritos na modalidade padrão da Língua Portuguesa, assinale a alternativa correta.